Uma fotografia do Cais do Sodré no dia 5 de Outubro de 1980. Aviva-me esta bem a memória acerca da Lisboa daqueles tempos. Era assim, realmente, desmazelada e suja, com lixo espalhado sempre pelo chão. Não melhorou; primeiro porque há hoje fatalmente mais lixo; depois porque sobra agora maior empenho em elaborar rodriguinhos ambientais e campanhas recicláveis (por ajuste directo ou para adjudicar a amigalhaços) do que em recrutar almeidas e tê-los a varrer as ruas. Sendo o lixo mais, hoje, como sabeis, deu ultimamente a Câmara de Lisboa em recolhê-lo só três vezes por semana. Entretanto, ou o atulhamos em casa, ou fazemos da porta da rua uma esterqueira. 
Cais do Sodré, Lisboa, 1980.
Fotografia: Biblioteca de Wood.
Neste sítio do Cais do Sodré paravam muitos autocarros. Podeis ver aí na imagem um 45, um 44, -- cujas paragens eram ali, exactamente ali, como diria o saudoso prof. Hermano Saraiva --, um 2, e um 35 meio escondido pelo Daimler Fleetline com publicidade à Efacec, cuja paragem era mais cá, justamente no passeio onde poisa o indígena à esquerda em primeiro plano.
Pois certa vez, por 1979 ou 80, estava eu por ali na paragem do 35 e havia um casal de turistas camones de roda da planta da rede de autocarros, apontando inúmeras vezes com o dedo e repetindo fourty four, fourty four em cada frase. O mais que diziam não o entendia, mas fourty four, fourty four era fácil: eles queriam o 44. Ora eu, mesmo sem saber amaricano, sabia justamente qual era a paragem do 44. Puxei ao senhor do casal pelo braço e disse-lhe -- Fourty four! -- fazendo-lhes o gesto de come on. E assim os guiei à paragem do 44, que era logo ali diante, como bem vedes, apontando-lhes lá, orgulhoso, a tabuleta que exibia em algarismos o número da carreira tanta vez repetido: o fourty four.
A paga foi uma festa na cabeça e um sorridente Thank you! You're very smart (mais tarde nesse dia soube o que significava e inchei).
O 44 apareceu num instante e, para o meu destino, que era o que calhasse, tanto dava o 35 como 44. -- Andava eu a espremer rendimento ao passo-social procurando descobrir a cidade. -- De maneira que apanhei logo ali o 44 também, levado por certa curiosidade acerca do casal de estrangeiros. Plantei-me uns quantos bancos atrás deles a ver do seu (e do meu) destino. O autocarro partiu, por alturas da Rua Augusta apareceu o condutor (o pica-bilhetes) e então assisti a um diálogo de surdos. O condutor perguntava em sonoro português: -- Para aonde? -- e a os turistas camones respondiam sabe-se lá o quê. Isto por umas quantas vezes. E então, já passados do Rossio, o homem dos bilhetes resolveu que tinha mais que fazer e decidiu-lhes o destino: -- Para o aeroporto? Muito bem! -- e rasgou-lhes do maço dois bilhetinhos de 7$50 (sete e quinhentos).
Os turistas camones sairam no Marquês de Pombal. A viagem até lá era só 5$00 (cinco escudos). Paciência.

Bilhetes desta colecção. Planta da rede de autocarros em Cruz-Filipe, História das Carreiras da Carris.
(Texto revisto.)
Bela evocação, Amigo Bic, embora perigosa por poder dar ainda mais ideias ao Ministro Gaspar...
ResponderEliminarQuanto ao lixo, desde a Revolução de 74 até hoje, não pára de acumular, com aquele depósito maior, logo ali na zona - que devia ser nobre - de S. Bento...
Uma Santa Páscoa!
ainda sou do tempo destes bilhetes, e nunca consegui saber para que serviam os números, e gostava de saber se o amigo alguma vez soube para que serviam tantos números nos bilhetes
ResponderEliminarSão dias de calendário. O condutor picava o número do dia da viagem. As séries dos bilhetes não se repetiam, por isso não havia confusão dum mês ao seguinte.
ResponderEliminarCumpts.
Tempos que já lá vão... Tudo roto, imundo, um asco, ontem e hoje, bem como convém ao portugalinho das abriladas. Mas uma coisa admito: em 1980 o rectângulito era mais português do que hoje.
ResponderEliminarGrato pela lembrança. Um abraço e uma Santa Páscoa, Caro Bic.
Santa Páscoa, também. Obrigado!
ResponderEliminarAcha que o lorpa das finanças lidar com cifras? Olhe que a escrita mete mais que cifras, mete cifrões, e vejo-o mui desatinado com uma coisas assim.
ResponderEliminar:)
A lixarada é exactamente assim, mas pior.
Cumpts.