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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

As mortalhas do Português


 Perante a notícia de o Brasil estar para pôr a aboborar até 2016 ou 2018 (e depois se verá) a infame açorda ortográfica de 1990, bem parece que a História se repete (ou que certa espécie de gente não leva emenda): em 1915 o Brasil decidiu aceitar a reforma portuguesa da orthographia, de 1911, e negou o propósito em 1919; em 1931, um «acôrdo», já (um que determinava que mãe se havia de escrever mãi), negociado entre as academias das Sciencias de Lisboa e Brasileira das Letras, deu em nada em 1935, no Brasil, com uma desculpa política qualquer; em 1945 novo «acordo» (já sem acento diferencial), passado a lei em Portugal e no Brasil, deu com os burrinhos na água no congresso brasileiro em 1955 debaixo de clamores contra o colonialismo português e contra a mineração do ouro no tempo do Senhor D. João V (!). Não parece ter ocorrido aos empolgados congressistas que a melhor linhagem dos colonos exploradores de ouro era a sua própria ali, no congresso...
 E a história é esta: Portugal põe-se generosamente (servilmente é ultimamente melhor termo) de acordo com o que o Brasil procura quanto à escrita do seu próprio idioma (seu próprio, de Portugal) e o Brasil sempre a dar-lhe e o burro a fugir, numa esquizofrenia incapaz de algum dia tolerar o pôr-se de acordo com Portugal porquanto isso representa avivar-lhe a identidade portuguesa. No Brasil padecem dum trauma de identidade, por isso vede-los às arrecuas a escoicear a História. Que Portugal se preste recorrentemente a este logro é estulto, além de inglório. – Parece-me que há portugueses, também, que se iludem com vagos fumos de império como essa palermice da «lusofonia» e que julgam sublimar, hoje, com acordos ortográficos, uma espécie de glória imperial que não se atrevem (ou nem se dão conta) de confessar. E com isso vejo que quem se mais inebria nestes fuminhos da lusofonia são justamente uns toleirões que condenam ou renegaram a nação pluricontinental. – Assim sendo, pois, não estranheis o resultado triste e catastrófico destes negócios ortográficos: dementes e inimputáveis poderiam alguma vez ser parte capaz de tratar com proveito de negócios sérios? Melhor foram os portugueses, apenas por si, sem se tornarem tributários de terceiros, tratarem com autoridade e boa regra da sua Grammatica nas quatro partes da Etymologia, Syntaxe, Prosódia e Orthographia ensinando-a aos seus filhos e vindouros e a quem na mais aprender quisesse. Os que soberanamente o assim não aceitassem, paciência! Que se trabalhassem de então livremente fabricar a Gramática que coubesse à sua linguagem. Uma coisa se daria com isto, notai: o idioma português seria naturalmente um, e só um – aquele que os portugueses regessem. Se mais não fôra, evitar-se-ia o tristíssimo espectáculo duma República dita portuguesa, imbecilmente voluntariosa e ingénua, a perder-nos em acordos ortográficos sucessivos consigo própria, de jure e de facto como se vem a ver com Portugal amarrado sozinho a cada acordo rasgado pelos brasileiros, e sem atinar com uma regra ortográfica decente nem coerente no diário oficial.
 E que já leva 101 anos nisto!





Imagens: José Vicente Gomes de Moura, Compendio de Grammatica Latina e Portugueza, 6.ª ed., Coimbra, Imprensa da Universidade, 1850; Diário da República, 2.ª série - N.º 198 - 12 de Outubro de 2012.
(Texto revisto.)

10 comentários:

  1. Carlos Portugal26/12/12 15:22

    Caro Bic:

    Pois grande novidade as incoerências deste aborto ortográfico e dos seus iletrados sequazes me revelam! Não sabia que havia «fatos tributários» e que estes podiam «ocorrer» em vez de serem vestidos...

    Cumprimentos e continuação de Santas e Felizes Festas!

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  2. Pois as entidades brasileiras fazem muitíssimo bem em abeberar durante mais uns anos, para, espera-se e deseja-se, finalmente anularem esta afronta (para não dizer escarro, desculpem o plebeísmo) que é o AO90 e queira Deus que para sempre.
    Estão de parabéns os responsáveis brasileiros que assim decidiram. Até parece - e pelo visto é um facto - que dão mais valor à língua portuguesa correctamente grafada do lado de lá do Atlântico do que certos auto-classificados 'linguistas' da nossa praça.
    Maria

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  3. Rogério Maciel27/12/12 00:24

    Caro BiCLaranja , Saudações Patrióticas e Anti-AO !
    Uma Santíssimo Natal do Senhôr !
    Rogério

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  4. Muito obrigado! Igualmente a si e aos seus.
    Boas festas!

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  5. Temo que dêem mais valor ao seu próprio linguajar do que ao Português. Apenas não têm coragem de o crismar brasileiro porque o português anda tem prestígio. Afinal não há Lusíadas em tupiniquim nem prémios Nobel em linguagem crioula. Mas que nos podem dar jeito, podem. Que pena as cacholas destes de cá serem como calhaus.
    Continuação de Boas Festas!

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  6. Pois não é uma palermice pegada? No Diário da República. Ao que havíamos de chegar...
    Festas Felizes!

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  7. :))

    -------------

    Votos agradecidos e duplamente retribuídos.
    Maria

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  8. as duas formas de escrever faCto no artigo do Diário da República mostra a pressa apressada para se aplicar o aborto ortográfico que até os brasileiros estão em dúvida se aplicam ou não

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  9. «Fato» a succeder a «facto» denuncia o propósito: forçar o português com o brasileiro.
    Bom anno!

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  10. Inspector Jaap10/1/13 17:25

    Não sabia o caro Carlos que havia «fatos tributários» porque até agora a tributação era um facto que «ocorria» com honestidade regras legítimas e não com a quadrilha de ladrões que os produz, para fazer jus à etimologia, mesmo que, ela também, duvidosa!
    Cumpts

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