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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O fim do Verão da Fórmula 1

 Há uma frase sobre o Alain Prost em 1981 que me ficou: «Um salto no vazio canadiano e adeus forçado despique do título.» Nunca mais me esqueceu. Vinha no jornal Auto-Sport, na reportagem do G.P. do Canadá, o penúltimo do campeonato de 1981. Aquela frase li-a na legenda inspirada duma fotografia do Prost e se a imagem então não era esta agora, mas em papel de jornal, bem podia.


Alain Prost (Renault RE-30), Montreal, 1981 Esse Verão de 81 começou uma semana antes de começar, com 43º em Lisboa. Quinze dias antes fora o G.P. de Espanha, cheio de interesse -- terminaram cinco carros no mesmo segundo. O Gilles Villeneuve ganhou. Empecilho nas curvas, imbativel nas rectas... Ninguém tinha carro para bater a potência do Ferrari turbo em aceleração. E ninguém tinha engenho de bater o lento Villeneuve nas partes sinuosas do circuito de Jarama. Na bandeira de xadrez, os cinco primeiros acabaram a corrida no mesmo segundo.


 Por uma dessas razões que se não explicam, elegi o Prost como meu ídolo ao depois em Julho, num dia em que nem vi a corrida; fui para a praia o dia todo e quando vim à tardinha vi no telejornal a notícia do Prost ter ganho o G.P. de França. Talvez eu apreciasse o amarelo dos Renault no preto e branco da televisão...


 Certo foi que ganhei entusiasmo pela Fórmula 1 e com ele contagiei os meus inseparáveis da vida airada nesse Verão: o Zé, o Jaime e o Pedro. Mas eram eles pelo Piquet, coisa trivial e desenxabida por o fulano ser brasileiro. O Helder de Sousa, o Adriano Cerqueira e o Jorge Pêgo, comentadores do éter em VHF e em FM fomentavam-no, era notório. A verdade, sei-o hoje, era que para se ser pelo Piquet não era precisa nenhuma imaginação. Só uma perfeitinha e acabada falta de originalidade.


 O Pedro, porém, foi de logo pouco convicto do Piquet. Tanto que se fez adepto depressa do Pironi (um nome giro que fazia lembrar a sirene duma ambulância: pi-ro-ni, pi-ro-ni...) Mas esse ano o Pironi andava pouco ganhador, de modo que foi andando o Pedro mais pendurado no Villeneuve nesse Verão. -- No fundo era ferrarista, era o que era. -- Numa coisa estávamos de acordo todos. O piloto mais detestado era o australiano Alan Jones, o campeão de 1980. Mas também essa opinião os comentadores do éter fomentavam...


 Verão adiante, com o entusiasmo firmado na modalidade, descobri o semanário Auto-Sport, que publicava as reportagens dos treinos e das corridas. Saía às quintas e era uma impaciência esperar desde o domingo a quinta para ver a história da corrida contada no jornal. O primeiro que comprei foi depois do G.P. de Inglaterra em Silverstone. O John Watson ganhou inesperadamente e, segundo reza, ficou no circuito a celebrar até de madrugada. Mesmo quando ficou só ele a festa continuou.


 A seguir a este, no G.P. da Alemanha, o Jaime apareceu com o jornal da especialidade numa quarta-feira. Trazia o Piquet na primeira página, o vencedor em Hockenheim. Era o jornal Motor, que eu não conhecia. Acabava por dizer o mesmo que o Auto-Sport à quinta, mas sem imagens a cores.


 O Verão correu assim, com este entusiasmo e, depois de Monza, em meado de Setembro, o campeonato só aumentou de interesse: havia 5 ou 6 pilotos nas contas para campeão do mundo. O Prost, como vencera em Monza estava lá, claramente nessas contas. E foi então que, acabado já o Verão e com a outoniça chuva de Montreal, o Alain Prost deu o tal «salto no vazio canadiano»... -- Soube-o eu com menos poesia do que a posta na legenda do jornal, pela F.M. da Rádio Comercial, que mandou ao Canadá o locutor Jorge Pêgo. -- Adeus!... Ganhou o Laffite. -- E assim na última corrida sobravam no baralho só três valetes (Laffite, Piquet, e Reutemann) para se tirar um campeão. O G.P. dos estados Unidos, que montou tenda no parque de estacionamento do Palácio do César das Veigas (ou Caesar's Palace de Las Vegas), deu, pois, na sorte das cartas o valete brasileiro. Festejaram em cheio o Jaime e o Zé (ainda hoje festejam) o fim do Verão de Formula 1.




Notas:
O G.P. do Canadá de 1981 foi em 27 de Setembro.
Imagem de Motorpasión.

18 comentários:

  1. E este ano, quem ganha?
    Cumps.
    Ricardo

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  2. Ainda há Fórmula 1?
    Cumpts.

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  3. "Mano velho", que bela recordação...
    E o meu "Didier Tinóni" esteve quase para ser campeão, lembras-te?
    Um grande abraço.

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  4. no meu tempo era um brasileiro que só teve um limite...a não ser a própria morte, de seu nome Ayrton Senna, este grande piloto então quando chovia ninguém o parava nem a chuva

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  5. Boa pergunta! Acho que sim.
    Ric.

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  6. "Uma frase" tem memória?
    Cumps.

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  7. Bic Laranja29/9/12 19:04

    Temerário. Como o Villeneuve. Foi isso que os levou.
    Cumpts.

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  8. Bic Laranja29/9/12 19:05

    Explique melhor.
    Cumpts.

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  9. Bic Laranja29/9/12 19:07

    Sim, em 82.
    Cumpts.

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  10. Bic Laranja29/9/12 19:10

    :) Cumpts.

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  11. " Há uma frase ... que me ficou: ... Nunca mais me esqueceu."

    Sendo assim: a frase esqueceu-me.

    É muito frequente.Cumps.

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  12. [...] Porque ordinário é declararem-se com mais facilidade os conceitos da alma escrevendo, que falando; assim em todas as [cartas] que temos do Arcebispo [de Braga, D. Fr. Bartolomeu dos Mártires] se vê e lê melhor [...]
    «Tenho-lhe escrito uma sobre a moderação das excomunhões que se tiram contra ladrõezinhos. de pôr que estivesse no Conselho mais N. e N. [...]»

    Fr. Luís de Sousa, A Vida de D. Fr. Bertolameu dos Martyres, Livr. Rollandiana, Lisboa, 1850 [1606], pp. 206-208, passim.
    Se bem é assim.
    Cumpts.

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  13. Parecendo esquisito para quem de fora se dá conta de todas as novas regras, o que é certo é que hoje a Formula 1 acaba por recuperar a "incerteza" no resultado e a "competitividade" de outrora. Veja-se os múltiplos, vencedores, as corridas de trás para a frente, um campeonato por decidir e as equipas mais "fracas" a fazerem top5.

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  14. Confesso-lhe não estar minimamente a par.
    Cumpts.

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  15. Vale a pena, mesmo. As primeiras 7 corridas tiveram 7 vencedores diferentes...

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  16. Acredito. Mas é tudo muito estranho. Grandes prémios do Barém, da Índia, da Singapura...
    Cumpts.

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  17. Sim.Sabemos isso. Agora falta o resto. Como analisa o verbo? Como justifica a forma escolhida? Como a classifica?
    Era isso que eu gostava de saber!
    Cumps.

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  18. Analiso o verbo com tendo conjugação impessoal. A Gramática parece que foge de justificá-lo e assim farei aqui eu «ca me esquecerom cousas que lhe nom disse» (), tão antigas elas são.

    () Demanda do Santo Graal (séc. XV).

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