Há uma frase sobre o Alain Prost em 1981 que me ficou: «Um salto no vazio canadiano e adeus forçado despique do título.» Nunca mais me esqueceu. Vinha no jornal Auto-Sport, na reportagem do G.P. do Canadá, o penúltimo do campeonato de 1981. Aquela frase li-a na legenda inspirada duma fotografia do Prost e se a imagem então não era esta agora, mas em papel de jornal, bem podia.
Esse Verão de 81 começou uma semana antes de começar, com 43º em Lisboa. Quinze dias antes fora o G.P. de Espanha, cheio de interesse -- terminaram cinco carros no mesmo segundo. O Gilles Villeneuve ganhou. Empecilho nas curvas, imbativel nas rectas... Ninguém tinha carro para bater a potência do Ferrari turbo em aceleração. E ninguém tinha engenho de bater o lento Villeneuve nas partes sinuosas do circuito de Jarama. Na bandeira de xadrez, os cinco primeiros acabaram a corrida no mesmo segundo.
Por uma dessas razões que se não explicam, elegi o Prost como meu ídolo ao depois em Julho, num dia em que nem vi a corrida; fui para a praia o dia todo e quando vim à tardinha vi no telejornal a notícia do Prost ter ganho o G.P. de França. Talvez eu apreciasse o amarelo dos Renault no preto e branco da televisão...
Certo foi que ganhei entusiasmo pela Fórmula 1 e com ele contagiei os meus inseparáveis da vida airada nesse Verão: o Zé, o Jaime e o Pedro. Mas eram eles pelo Piquet, coisa trivial e desenxabida por o fulano ser brasileiro. O Helder de Sousa, o Adriano Cerqueira e o Jorge Pêgo, comentadores do éter em VHF e em FM fomentavam-no, era notório. A verdade, sei-o hoje, era que para se ser pelo Piquet não era precisa nenhuma imaginação. Só uma perfeitinha e acabada falta de originalidade.
O Pedro, porém, foi de logo pouco convicto do Piquet. Tanto que se fez adepto depressa do Pironi (um nome giro que fazia lembrar a sirene duma ambulância: pi-ro-ni, pi-ro-ni...) Mas esse ano o Pironi andava pouco ganhador, de modo que foi andando o Pedro mais pendurado no Villeneuve nesse Verão. -- No fundo era ferrarista, era o que era. -- Numa coisa estávamos de acordo todos. O piloto mais detestado era o australiano Alan Jones, o campeão de 1980. Mas também essa opinião os comentadores do éter fomentavam...
Verão adiante, com o entusiasmo firmado na modalidade, descobri o semanário Auto-Sport, que publicava as reportagens dos treinos e das corridas. Saía às quintas e era uma impaciência esperar desde o domingo a quinta para ver a história da corrida contada no jornal. O primeiro que comprei foi depois do G.P. de Inglaterra em Silverstone. O John Watson ganhou inesperadamente e, segundo reza, ficou no circuito a celebrar até de madrugada. Mesmo quando ficou só ele a festa continuou.
A seguir a este, no G.P. da Alemanha, o Jaime apareceu com o jornal da especialidade numa quarta-feira. Trazia o Piquet na primeira página, o vencedor em Hockenheim. Era o jornal Motor, que eu não conhecia. Acabava por dizer o mesmo que o Auto-Sport à quinta, mas sem imagens a cores.
O Verão correu assim, com este entusiasmo e, depois de Monza, em meado de Setembro, o campeonato só aumentou de interesse: havia 5 ou 6 pilotos nas contas para campeão do mundo. O Prost, como vencera em Monza estava lá, claramente nessas contas. E foi então que, acabado já o Verão e com a outoniça chuva de Montreal, o Alain Prost deu o tal «salto no vazio canadiano»... -- Soube-o eu com menos poesia do que a posta na legenda do jornal, pela F.M. da Rádio Comercial, que mandou ao Canadá o locutor Jorge Pêgo. -- Adeus!... Ganhou o Laffite. -- E assim na última corrida sobravam no baralho só três valetes (Laffite, Piquet, e Reutemann) para se tirar um campeão. O G.P. dos estados Unidos, que montou tenda no parque de estacionamento do Palácio do César das Veigas (ou Caesar's Palace de Las Vegas), deu, pois, na sorte das cartas o valete brasileiro. Festejaram em cheio o Jaime e o Zé (ainda hoje festejam) o fim do Verão de Formula 1.
Notas:
O G.P. do Canadá de 1981 foi em 27 de Setembro.
Imagem de Motorpasión.
E este ano, quem ganha?
ResponderEliminarCumps.
Ricardo
Ainda há Fórmula 1?
ResponderEliminarCumpts.
"Mano velho", que bela recordação...
ResponderEliminarE o meu "Didier Tinóni" esteve quase para ser campeão, lembras-te?
Um grande abraço.
no meu tempo era um brasileiro que só teve um limite...a não ser a própria morte, de seu nome Ayrton Senna, este grande piloto então quando chovia ninguém o parava nem a chuva
ResponderEliminarBoa pergunta! Acho que sim.
ResponderEliminarRic.
"Uma frase" tem memória?
ResponderEliminarCumps.
Temerário. Como o Villeneuve. Foi isso que os levou.
ResponderEliminarCumpts.
Explique melhor.
ResponderEliminarCumpts.
Sim, em 82.
ResponderEliminarCumpts.
:) Cumpts.
ResponderEliminar" Há uma frase ... que me ficou: ... Nunca mais me esqueceu."
ResponderEliminarSendo assim: a frase esqueceu-me.
É muito frequente.Cumps.
[...] Porque ordinário é declararem-se com mais facilidade os conceitos da alma escrevendo, que falando; assim em todas as [cartas] que temos do Arcebispo [de Braga, D. Fr. Bartolomeu dos Mártires] se vê e lê melhor [...]
ResponderEliminar«Tenho-lhe escrito uma sobre a moderação das excomunhões que se tiram contra ladrõezinhos. de pôr que estivesse no Conselho mais N. e N. [...]»
Fr. Luís de Sousa, A Vida de D. Fr. Bertolameu dos Martyres, Livr. Rollandiana, Lisboa, 1850 [1606], pp. 206-208, passim.
Se bem é assim.
Cumpts.
Parecendo esquisito para quem de fora se dá conta de todas as novas regras, o que é certo é que hoje a Formula 1 acaba por recuperar a "incerteza" no resultado e a "competitividade" de outrora. Veja-se os múltiplos, vencedores, as corridas de trás para a frente, um campeonato por decidir e as equipas mais "fracas" a fazerem top5.
ResponderEliminarConfesso-lhe não estar minimamente a par.
ResponderEliminarCumpts.
Vale a pena, mesmo. As primeiras 7 corridas tiveram 7 vencedores diferentes...
ResponderEliminarAcredito. Mas é tudo muito estranho. Grandes prémios do Barém, da Índia, da Singapura...
ResponderEliminarCumpts.
Sim.Sabemos isso. Agora falta o resto. Como analisa o verbo? Como justifica a forma escolhida? Como a classifica?
ResponderEliminarEra isso que eu gostava de saber!
Cumps.
Analiso o verbo com tendo conjugação impessoal. A Gramática parece que foge de justificá-lo e assim farei aqui eu «ca me esquecerom cousas que lhe nom disse» (), tão antigas elas são.
ResponderEliminar() Demanda do Santo Graal (séc. XV).