Mobilidade não é locomoção. A locomoção é o movimento pelo qual um corpo muda de lugar. A mobilidade é qualidade do que é móvel ou mera possibilidade de um objecto se mover ou ser movido. A locomoção é física, produz-se no espaço; a mobilidade é abstracta, elabora-se na mente.
É habitual os burocratas desconhecerem a realidade e os políticos descuidarem-na. Como são sempre gente «conceituada», elaboram-na [à realidade] assaz conceptualmente… — Pois bem, a mobilidade em si mesma não é nada. O que materializa a minha mobilidade (a minha capacidade de locomoção) são os meios: as minhas pernas, para começar; as pernas doutro animal ou algum meio mecânico em que me eu encavalite, mais indirectamente (e menos cansativo, pois claro). Sobra o espaço. O espaço em que a minha locomoção por esses meios se pode fazer.
A Câmara de Lisboa tem um vereador da (ou «para a», que é já mais um rodriguinho) mobilidade.
Tem o seu pelouro municipal por objecto as minhas pernas? — Não.
Tem por objecto o meu burrico ou a minha carroça? — Também não.
Quando muito, falando em meios de locomoção, teria pelouro sobre os transportes públicos (que até cuido terem vereador à parte).
Sobra o espaço; é principalmente do espaço urbano viário que o vereador dito «da mobilidade» tem pelouro. Este pelouro é na realidade o dos caminhos (melhor: ruas, praças e avenidas — ah! e ciclovias ops! vias cicláveis, pois Lisboa não é uma terra qualquer). Deve ser da vaga noção disto — de ser afinal o vereador dos caminhos — que pariram o pomposo complemento do nome do pelouro: «mobilidade e infra-estruturas viárias». (Olaré! Dos «caminhos» seria simplório...)
Calhei ouvir anteontem na telefonia este vereador dos caminhos da mobilidade e infra-estruturas viárias numa notícia de «restrições à circulação do trânsito» no Terreiro do Paço agora em Agosto (saiba o leitor que «restrições» é eufemismo para «interdição» e a «circulação do trânsito» é disparatada redundância; a menos que «restrições à circulação» seja trânsito de lá para cá e «do trânsito» seja, por preciosa função poética, circulação de cá para lá — e vice-versa, necessàriamente).
A notícia é, portanto, da interdição viária no cais das colunas e na Ribeira das Naus (a somar ao que já por ali inventara o trôpego Costa, parece-me). Porque «sobretudo com as deformações do pavimento decorrentes de chuvas e do facto de a obra não ter ficado suficientemente consolidada na altura da sua abertura [quando tivemos S.S. o Papa]» (vereador dixit) o piso «ondulou» e houve «cubos que se soltaram». Ora tudo isto são rodriguinhos de linguagem para dizer que acabaram a obra à pressa para receberem S.S. o Papa e com tanto a calçada se desconjuntou.
No fim ficou-me que o sr. vereador chama «cubos» às pedras da calçada. Cubos. O labor conceptual de burocratas e políticos explica muito do que nos rodeia, mormente em Lisboa: e com ele a quadratura de calhaus da calçada ser municipalmente entendida como um sólido geométrico perfeito…
Terreiro do Paço, Lisboa, [s.d.].
Mário de Novais, in Bibliotheca d'Arte da F.C.G..
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Mobilidade e outros rodriguinhos
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Lindo e imponente.
ResponderEliminarMaria
Sim. Foi para subjugar o viajante que chegasse por mar, fosse invasor, fosse plenipotenciário da paz, que o fizeram assim.
ResponderEliminarCumpts.
Deixo aqui um pequeno poema da autoria do nosso maior poeta do século XX, dentre os muitos belos e sentidos que nos legou e que, tal como o tom pardacento e triste que envolve a magnificente Praça no dia em que a foto foi tirada, retrata só um pouco da profunda mágoa que me invade a alma quando, polìticamente falando, comparo o Portugal de há trinta anos e o dos nossos dias.
ResponderEliminar*********************
Há dias de tanta angústia
Que não sei do que ela é
Não sei se me sobra o sonho
Não sei se me falta a fé.
É uma angústia que cai
Como num solo, por mim
Que parece ser eu todo
Com razão de ser assim.
E esmaga-me toda a alma
Confunde todo o meu ser
E tudo gira em meu torno
Sem eu o compreender.
Mágoa como um portão velho
Ferrugem da quinta em fim
Que nem abre nem fecha
E está assim porque é assim
Pernando Pessoa
5.03.1931
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Maria
Disso não tenho a mais pequena dúvida!
ResponderEliminarMaria
Nada de mais certo… antes e agora.
ResponderEliminarAntes fizeram-no assim pelas razões aduzidas com toda a propriedade; agora transformaram-no nisto para que o viajante que chega, seja ele invasor ou plenipotenciário da paz, dê meia-volta de imediato pensando com os seus botões, que raio é que vem invadir aqui, miséria e porcaria, moral e humana, no caso daquele, ou fica de imediato condoído, no caso deste, podendo eventualmente contribuir com mais um emprestimozito para estes miseráveis, a avaliar por esta sala de visitas…
Agora que esta custa mesmo a engolir, lá isso custa, mesmo a 300 km de distância; imagino pois, o que os alfacinhas sentem a ver “aquilo” todos os dias. Começamos a gora, a entrar no lodo, depois de termos tocado no fundo.
Cumpts
... fique de imediato...
ResponderEliminarcom as minhas desculpas.
Cumpts
O tempo em que nos achamos reencarna o da primeira estrofe d' «O Mostrengo» sem a devida sequência...
ResponderEliminarO mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar [...]
É às cavernas do Mostrengo no fim do Mundo que tornámos por gente infame e sem brio. O Mostrengo sabe, rodeia-nos e chia que eu sei lá! Sabe que não temos já D. João Segundo...
Cumpts.