Um cavalheiro Lavoura que escreve em brasileiro num blogo com título «amaricano» resolveu olear a inteligência num excerto de José António Saraiva no Cachimbo de Magritte, brotando-lhe a tese de: «No Portugal tradicional, o de há cinquenta anos, praticamente toda a gente (pelo menos as mulheres) vestia de negro. Os fatos de homem também eram sempre negros. Portugal era o país do negro. De acordo com as curiosas ideias do arquitecto Saraiva, teríamos que o Portugal tradicional fugia em direcção ao nada.»
É uma «curiosa» ideia a sua (do tal Lavoura), inspirada nuns dizeres do arquitecto Saraiva acerca de ser o negro (o trajar negro) sinal duma sociedade a caminho do nada. Uma ideia que não perscruta a sóbria fazenda dos alfaiates de então, que se não coteja com a moda noutros países tradicionais a ver que ombreassem com Portugal como «países do negro», mas que brotando do escuro do seu bestunto por iluminação fortuita do arquitecto Saraiva o havia, ao menos, de elucidar pelos efeitos observados neste Portugalinho hodierno. — A ideia bate certa à chegada. — O nada em que Portugal se vê hoje brotou de mentes assim como a do Lavoura, que baralham fatos negros com factos obscurecidos; mentes moldadas por ideias fortuitas em modas garridas, que se não afectam por nada da óbvia realidade, nem quando por acaso arribam por raciocínios etéreos a uma acertada conclusão. Desafortunado acaso, tão estéril como estas mentes, que não produz vislumbre de reflexão.
Na imagem em baixo o Portugal tradicional vê-se de chapéu e fato sem que daí os trajos sejam «sempre» (ou sequer) negros. Eis os fatos e os factos. Decerto, dado que Portugal veio entretano a dar em nada, são mais recentes do que de há cinquenta anos as fatiotas negras que confundem as mentes e obscurecem os factos. E assim, se a assimilação de fatos com factos é comprovadamente de 1990 e a fotografia é de c. 1960, o negro dos factos subjacente ao destino a que chegou Portugal deve estar no meio. Aí pelo meado dos anos 70.
Rua Augusta, Lisboa, c. 1960.
A.N.T.T., «O Século», Joshua Benoliel, cx. G, lote 0, neg. 341.
sábado, 14 de abril de 2012
Rua Augusta
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A asneira é livre, não paga imposto e é cada vez mais difundida!
ResponderEliminarFugindo ao tema do post, e porque não encontrei o endereço de e-mail, deixo aqui o link sobre o post que publiquei agora - "Os poços cobertos de Janas", tema que tinha prometido tratar:
ResponderEliminarhttp://riodasmacas.blogspot.pt/2012/04/os-pocos-cobertos-de-janas.html
Um abraço
Nunca ouvi maior parvoíce! As senhoras, sobretudo nas cidades, não vestiam vermelho-escarlate, salvo excepções que também as havia, mas não andavam vestidas de negro retinto! Havia as excepções, quando de luto, naturalmente, mas durante um curto período, consoante a educação recebida e a posição social. Mas mesmo o luto deixou de usar-se em larga medida, pelo menos em Lisboa, lá pelos anos sessenta. Homens e senhoras.
ResponderEliminarTodos os países mediterrânicos, tal como os latino-americanos, com a excepção do Brasil, o praticavam desde que se tratasse de gente humilde e até não humilde, sobretudo na província, por uma questão de respeito pelos falecidos, de religiosidade, mas também por tradição ancestral, designadamente em Espanha e Itália e muitíssimo na Grécia. Tal e qual como cá, em algumas províncias. Mas e qual é o problema se todos andássemos vestidos de preto? Era pecado, porventura?
Nós não vivemos num país tropical onde as altas temperaturas não se compadecem com determinado tipo roupa tida por menos fresca. Esta é a diferença da vestimenta (e das cores) que se usa nos países quentes, nos temperados e nos frios. A situação geográfica aqui é determinante.
Obs.: Se a foto fosse a cores, a gabardine do senhor que está de costas percorrendo uma rua qualquer da Baixa, verificar-se-ia ser beige muito clara com toda a certeza. E os outros transeuntes também não vão vestidos de preto dos pés à cabeça, por amor de Deus! Que os homens se vestiam de um modo sóbrio, isso é verdade (por ser uma tradição que vinha das décadas passadas) mas não como se estivessem de luto permanente.
Mas que disparate (e insulto, porque é uma mentira pegada) a apreciação sobre o modo de vestir dos portugueses nos anos sessenta! Realmente não tem ponta por onde se lhe pegue.
Maria
Nota: Ainda não li escrito completo a que alude, mas vou fazê-lo sem dúvida.
Então o o poço ficou debaixo do café central.
ResponderEliminarAlegro-me que haja achado o sr. Armindo que ia de cima do burro.
Menos pelo destino do poço, mas, enfim!...
Grato pelo seu interesse.
Aqui há uns tempos, o meu amigo publicou uma fotografia tirada no átrio de uma estação do Metropolitano de Lisboa que seria muito interessante republicar agora, já que a mesma era bem elucidativa do facto de que homens e mulheres, na época em causa, estavam bem longe de se vestir sempre e só de preto.
ResponderEliminarTem razão. Não me lembrou dela.
ResponderEliminarObrigado!
Claro. Sem a garridice de lugares exóticos havia cor. O leitor José lembra adiante uma fotografia que já publiquei e que me esquecera. Lá se vê o disparate destes raciocínios apressados tão em voga hoje.
ResponderEliminarCumpts.
Veja o Amigo Bic como o dislate até foi contraproducente: ao botar faladura sobre coisas mais ficcionadas que reais, saiu ao citado aquela de «Portugal é o país do negro». Bem, como pode, então, ser criticada como falsa a política integracionista do Estado Novo, na construção das Províncias Ultramarinas? Uns racistas, estes anti-colonialistas !
ResponderEliminarPegando no que diz SN , sublinharia a vertente cerimonial da cor preta no trajo, que por aí teve a sua entrada, adequando-se às solenidades de vária ordem. No luto, só a partir de D. Manuel I, até aí a cor de nojo era a do burel cinzento. E, no Século XX, se alguém costumava, na Península Ibérica, andar sempre de fato completo negro, eram os Notários Espanhóis, durante o Franquismo, assim fazendo por se distinguir do resto da população peninsular, segundo vários viajantes que cá passaram Déon , Campbell ...).
Abraço
Não pode. O seu racismo é evidente no princípio que norteou a independência dos arquipélagos atlânticos.
ResponderEliminarAproveito da toleima o que me ensina o estimado confrade sobre o luto e a indumentária das hespanhas nos séc. XX, por contraste com os notários de além da raia.
É um grato prazer revê-lo por cá!
Um abraço.
Sim. Parece.
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