Apregoam por aí aos sete ventos os da «vanguarda» ortográfica que é preciso de «evoluir». Que escrever à brasileira é que é. — Muitos nem sonham que a nova escrita é à brasileira... porque do português também nada sabem. — Sem embargo cuidam esses «vanguardistas» já saber tudo, por si e pelos outros, sem curar de saber coisa nenhuma senão de impô-lo aos «velhos do Restelo» (e sabe-se lá onde descobriram este rótulo). Afinal se vão na vanguarda, que precisam mais de saber? Basta irem. Por isso são eles que ditam democraticamente a mudança, esse imperativo categórico sem o qual não se pode ser. Se lhes zurram que o «p» de óptimo é inimigo do bom, então ah! mas sim, pois claro! — Que é lá isso dum «p» que se escreve não parecendo que se oiça?! Coisa de antes. E dantes era tudo tão pouco evoluído!
— Olha! Como no tempo daquele da batalha de Aljubarrota, o Condestável, que mesmo fidalgo importante, nisto das letras nem para a 4.ª classe dava. Não querem lá ver como ele escrevia mal numa carta a sua neta D.ª Isabel. Era no modo como falava...
A Senhora D. Zavel minha netinha faga Deos santa. — Ninguna reson tenedes pera renhir-me, porque hei grão prazer de letras bossas leer. Os dias atraz ubi [i.e. houve = recebi] huma bossa, que me foy tragida por bentura, e se non bos foy respondida, non foy menga [falta, ou melhor, míngua] de bontade, mas de mui pouca saude que para ello tube. Escrever a Fernando mais avondo [mais vezes] bos non faga tenerdevos em o logo [terdes em conta] de que más a el do que a bos hei d'afeiçom &c. |
O Panorama: Jornal Litterario e Instructivo, N.º 1, 6 de Maio de 1837.
Notas: 1) o castelhano que se acha escrito (faga, ninguna, tenedes, más) deve-se talvez a que a destinatária da carta era a rainha de [tenha nascido e vivido em] Castela; 2) os vv pelos bb, tragida por trazida, menga por míngua, são marcas de pronúncia; 3) ubi por houve e tube por tive, podem ser uma ou outra das anteriores (ou as duas à uma).
(Traslado às 8h10 da noute.)
“Muitos sonham que a nova escrita é à brasileira… porque de português nada sabem”
ResponderEliminarCreio que tocou no ponto fulcral da questão, Senhor Bic Laranja.
Não serei tão drástica nesse “nada sabem de português”. Digamos que sabem muito, mas muito pouco. Porém, ostentam esse pouco com uma petulância que causaria pena, se não fosse a prepotência e arrogância como impuseram o AO, desbobinando argumentos de uma fragilidade e irresponsabilidade verdadeiramente indecentes, não lhe parece?
Se ao menos procurassem saber como se processou o Acordo de 1945! Quantas asneiras nos seriam poupadas e quão bela ocasião para porem de lado, definitivamente, esta tendência para o Acordo-mania.
Naquele acordo, tudo fora estudado competentemente (e sublinho competentemente), a fim de que a nossa língua materna prosseguisse, de uma vez para sempre, no seu caminho evolutivo normal.
Queira perdoar-me se abusei deste seu espaço.
Os melhores cumprimentos
Que maravilha de carta e que linda estilística. E, imagine-se, isto já nos primórdios do séc. quinze! A leitura deste "bem falar e bem escrever" (filosofia axiomática aplicada ao ensino até à década de 70 do séc. XX e que, curiosamente - salvaguardada a distância - pode trespor-se aos tempos do Condestável) trouxe-me à memória uma afirmação do meu saudoso pai quando eu, teria os meus 10/11 anos, lhe perguntei porque motivo tendo as duas línguas a mesma origem se tornaram tão dissemelhantes e qual delas era a mais importante. Resposta: "Será o português porque evoluiu, aperfeiçoando-se sempre, ao passo que o espanhol estagnou".
ResponderEliminarMaria
Não abusou. Fico-lhe grato pelo comentário.
ResponderEliminarCom desculpas pelo atraso.
Cumpts.
Desse axioma temos hoje a linguagem de SMS. Grunhe-se bem, grafa-se a condizer.
ResponderEliminarCumpts.