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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Que se tira dum comício?

Comício, Arroios (A.N.T.T., «O Século», PT-TT-EPJS-SF-008-00003_m0001)

 Um comício republicano à beira da Rua do Conselheiro Moraes Soares. — Vale-me que hoje é dia de Carnaval...
 O edital que deliu o «Conselheiro» da rua dedicada ao bacharel em Medicina Rodrigo Moraes Soares é de 27 de Novembro de 1916 — o topónimo «foi alterado para Rua Morais Soares, uma vez que o título de conselheiro se identificava com o regime monárquico e era atribuído, tradicionalmente, aos magistrados do Supremo Tribunal e por vezes, o soberano concedia-o a pessoas que tinham prestado serviços honrosos.» (C.M.L./D.P.M./N.T.) — Honra também aos republicanos, daqui do comício e não só, pelo diligente bolear da História...


 Ou me engano ou este comício foi nas traseiras da Caixa Geral de Depósitos, no n.º 153...
 O benévolo leitor entrevê pelo meio do arvoredo, ao fundo, uma casa? É o hospital de Arroios. Vislumbram-se também por ali uns telheiros adjacentes ao hospital que ficavam exactamente por onde se fez o prolongamento da Av. Almirante Reis, nos anos 30, da Praça do Chile ao Areeiro (cf. Avenida Almirante Reis, 1938). O muro mais cá que encobre esses telheiros mostra bem o desnível do terreno em relação à primitiva Rua do Conselheiro Morais Soares. Saberá que era esta a velha estrada de circunvalação de Lisboa, com cariz militar, feita em aterro a servir de barreira e, como o nome indica, com vala exterior em muitos troços. Tudo novidades antigas e história esquecida hoje e já pelos alvores do séc. XX, de modo que não admira ver aqui o começo da edificação de prédios de rendimento à beira duma velha linha de defesa de Lisboa. Estes dois prédios que o benévolo leitor aí tem são dos primórdios do crescimento urbano acima de Arroios. Deitei-me hoje a adivinhar que fossem, estes que vê, onde hoje temos os n.ºs 153 e 155 da Rua Morais Soares e tenho-os por demolidos pelo fim dos anos 40, início dos anos 50 (cf. A.M.L. / Núcleo Intermédio, proc.º de obra n.º 7078 e n.º 19780). Não faço adivinhação à toa, porém assumo o golpe de vista a partir de referências visíveis — o hospital de Arroios e o muro bem identificado numas vistas do alto da Penha de França que em tempo publiquei (v. Mirai! Da Penha de França, Uma panorâmica de Lisboa e Rua Conselheiro Morais Soares, c. 1910) — e fundado na observação actual do lugar: há-de o benévolo leitor notar (em conhecendo aquele troço da rua) que não há nenhum par de edifícios de três janelas nos dois últimos quarteirões no lado do Sul da Rua Morais Soares e veja que os prédios originais da rua têm todos a traça dos gaioleiros de 1880-1930; originais e não reconstruções, portanto. Assim, os únicos dois lotes que cuido se prestam a neles caber um par como da imagem são os que mostram dois edifícios de construção mais moderna, precisamente os n.os 153 e 155; faz sentido esta conjectura quando tem alguma lógica (que de resto verifiquei noutros casos) haverem sido demolidos justamente os dois prédios de rendimento mais antigos do troço da em questão; conjugo a sua pouca longevidade (anos 40-50, como disse) com a fraca construção de tantos gaioleiros do tempo da Grande Guerra. Alguns ruíam por si. Mas lança-me isto já na tentativa de datar a imagem.
 A fotografia que aqui vedes não tem legenda nem data pelo conservador da Torre do Tombo. A planta de Arroios  de 1909 (Pinto Silva, Levantamento da Planta de Lisboa: 1904-1911, planta 11K) não representa estes prédios. As vistas que conheço, porém, da primeira década de 1900, sobre a Morais Soares desde o alto da Penha de França (cf. remissões acima) não mostram prédios de rendimento neste troço. Para situar minimamente esta agora no tempo posso guiar-me pela abertura da Rua Edith Cavell, uma rua da prancheta dos serviços de urbanização da C.M.L. sobre as quintas dali em redor: o edital é do fim 1915. Não dá uma datação exacta, que pouco importa; serve para fazer uma ideia. 
 E bem! Este comício aqui foi de certeza posterior a 1909. Se foi por volta de 1915 também não íamos mal...
 Fora disto (de comícios republicanos), Arroios era um lugar aprazível.

Panorâmica da Penha de França, Arroios (P.Guedes, c. 1900)




Fotografias:
[Comício], Arroios, [post 1909]. Joshua Benoliel, A.N.T.T., «O Século», cx. 001, negativo 03.
Panorâmica da Penha de França, Lisboa, c. 1900. Paulo Guedes, Arquivo Fotográfico da C.M.L..

5 comentários:

  1. Carlos Portugal21/2/12 17:20

    Belíssima a fotografia da Penha de França, Caro Bic. E a sua estupenda explicação. Agora o mar de chapéus republicanos... Faz-me lembrar a Canção de Lisboa...
    Cumprimentos.

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  2. Ah!Ah!Ah! O que não diria o Vasquinho da Anatomia de tanto coco palerma.
    Obrigado!

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  3. Carlos Portugal22/2/12 00:15

    Obrigado eu, Caro Bic, pelos seus sempre excelentes postais!
    Cumprimentos!

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  4. Um passeio pelas memórias. Fantástico!

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