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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Duma certa linguagem...

 Em três comentários que deixei no blogo do Cachimbo de Magritte dois levavam o vernáculo «paneleiragem». O verbete era sobre paneleiragem, portanto... Mas eles lá no Cachimbo dizem «gay». Os meus dois comentários que metiam «paneleiragem» (salvo seja) ficaram por publicar. Provavelmente não interessariam muito e nem eu me lembra o que foi que neles disse (*); ficou-me só que escrevi neles o palavrão «paneleiragem» e cuido que por ele — pelo palavrão — não mos hajam publicados. Os do Cachimbo de Magritte não toleram linguagem desbragada e eu concordo: não é léxico autorizado.
 Um termo tão rude como «paneleiro», mas calão esquecido na voz corrente, é «fanchono». — Raul Brandão, lembro-me eu, usou-o nas «Memórias». António Ferreira diz que também (cf. verbete original), há séculos, na comédia «Bristo» dedicada ao infante D. João, pai de el-rei D. Sebastião. De caminho entre ambos não há-de ter falhado a Bocage, estou certo. — Ora a «paneleiro» não conheço pergaminhos de belas-letras que lhe valham. E «fanchono», por ignorado completamente ou por alcatruzado às belas-letras por autores de nomeada, é claro que teria passado no crivo do moderador do Cachimbo sem ninguém lhe sentir a depreciativa rudeza. Tal e qual — somado que é novidade lexical vinda lá de fora, elegância sempre encantadora —, poucos hodiernos detectam a torpeza do «gay». Em todo caso este género de linguajar obscurantista cedo recupera carga pejorativa; o blogo das «Perspectivas» usa amiúde o mestiçado «gayzismo» como extensão semântica da coisa: da paneleiragem, isto é. O significado não se desvia por lhe mudarmos o significante, só a percepção daquele pode às vezes ser mitigada. Mas inevitavelmente a realidade torna e não despega. Por mais que dobremos a língua, paneleiragem é... paneleiragem, desde os tempos bíblicos de Sodoma. Havia de ser agora que, com um arco-íris de significantes, a realidade se desviava de o ser? O que passávamos bem era sem ela assim, chibante, na Av. da Liberdade.


... E doutras narrativas que moldam


(Prima para ler.)


Malheiros, «Léxico autorizado» («Público», 28/2/2012)
(«Público», 28/2/2012.)




(*) Deve ter sido o que está à vista, perdoe-se-me a sinceridade: o que a paneleiragem quere é chegar aos meninos.

22 comentários:

  1. Ditadura do «politicamente correcto».

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  2. Não sei o porquê de tantos pruridos com esse vocábulo. É bem melhor do que os outros quatro sinónimos. Estas novas modas de empregar estrangeirismos de todo o género e feito, a torto e a direito, que aterraram em Portugal com e na boca dos abrileiros cujo objectivo único era dar início ao desvirtuamento da língua portuguesa para, após o tempo julgado oportuno, darem à luz o aborto ortográfico dando origem à novilíngua que eles tanto adoram e praticam. Tudo o que seja destruir Portugal por todas as vias possíveis, incluíndo tradições e práticas quase milenares, pr'além do nosso segundo bem maior, a língua, aí eles estão sempre prontos para pôr as mãos à obra.

    Aliás trata-se de um disparate de todo o tamanho empregar o vocábulo "gay" para designar um maricas ou paneleiro, porque até talvez aos anos 70 (anos do LSD em força e que provàvelmente lhe deu origem, embora erradamente), nos Estados Unidos a palavra "gay" significava "alegre", "jovial", "de bom humor". Tenho cá em casa um disco (L.P.) de um tenor norte-americano que gravou algumas canções populares nos anos 50 cuja letra de uma delas contém o vocábulo "gay" com o valor de "alegre" ou "de bom humor". Por conseguinte essa americanice não tem cabimento no nosso dialecto escrito ou falado, por duas razões: a primeira é que ela significa de facto "ALEGRE"/"JOVIAL" e não homossexual; a segunda, porque ela é desprovida de sentido numa língua com um vocabulário riquíssimo como é a nossa, em que há tradução para pràticamente todos os estrangeirismos.

    Só há algumas raríssimas excepções, que as há em tudo e em todas as línguas, mas na sua enormíssima maioria, a par de um ou outro anglicismo e/ou francesismo há SEMPRE o respectivo aportuguesamento destes ou mesmo, se se quiser, a completa tradução em sua substituição.
    Maria

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  3. Outra porcaria que cá não fazia falta eram as bichas.
    É precisa uma paciência!
    Cumpts.

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  4. Ditadura, não. Democracia, s.f.f.
    Cumpts.

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  5. Uma coisa é o politicamente correcto, que é lamentável. Outra, diversa, é não se usar linguagem de carroceiro.
    Bem fez o «Cachimbo» em não permitir essa falta de gosto. E se a linguagem chula parece ser, à primeira vista, politicamente incorrecta, acaba por ser uma aliada objectiva do correctismo, ao vir proclamar que tudo é permissível.

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  6. Completamente d'acordo.
    Maria

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  7. Também acho que os do Cachimbo fizeram bem. Mesmo se não achasse o blogo é deles... Não reclamo disso aqui, usei-o como introdução (salvo seja) ao que vem depois. O calão.
    Pois o calão não é aliado de nada a não ser de mau modo e de canelada. A paneleirage' (vamos dizer assim que sempre é mai' brando) já cansa. Enfada. Farta. Enjoa. Reclama num carnaval de birras todo o santo ano por tudo e mais alguma coisa. - E não vejo já, no ponto a que a pocilga social chegou, do que se queixam. - Os heterossexuais têm tempo de antena por isso? - Não. A paneleirage' tem. Os solteiros e os casados reclamam da adopção? - Não se sabe, mas da paneleirage' sabe-se. Não há maneira de nos desampararem a loja com uma ínfima fracção de primatas caprichosos e de gosto extravagante; parece que é só o que há. Pois se o mau gosto é só o que há, rejeite-se-o afrontando-o do mesmo modo taful com que a paneleirage' afronta. Cada um desafronta-se como lhe calha. Viva a libertinagem! Não é o que querem?

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  8. Acabo de ler duas noticias curiosas no mínimo
    só para lhe dar conhecimento
    "Brasil: Autoridades pedem tradução de passaporte a português"
    http://www.destakes.com/redir/c5351f44b47eccc2c4944ee113c86000

    "Publicidade do Azeite Gallo acusada de racismo no Brasil"
    http://www.destakes.com/redir/ec9958bbec315ff6dee0e4dc520c41a0

    só porque mencionam que a garrafa é de vidro escuro

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  9. Assim como condenamos que o homossexualismo activista pretenda equiparar-se à heterossexualidade - casamentos e adopções são meros pretextos para tal - assim o uso de baixo calão não é comparável a uma linguagem cuidada.
    Não tem graça, é descer ao lameiro. Acho que tem o dever de respeitar quem aqui vem e, sem aviso, se vê confrontado com linguagem desse jaez. Penso principalmente em senhoras.
    É altura de começarmos a tentar fazer força para cima. Foram muitos anos de rufias, escusamos de lhes continuar a imitar os plebeísmos.

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  10. Segundo ouvi também os ciganos querem proibir o dicionário Houaiss que define «cigano» como de pouca confiança. também é racismo.
    Muito gostam os estúpidos de judiar com a inteligência. Foi com gente assim que unificaram a grafia do idioma, não foi?
    Cumpts.

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  11. Não foi para ter graça. Foi para adjectivar seriamente e com propriedade o lameiro, como há-de ter compreendido. Lamento o melindre. Quem me conhece o blogo há-de saber sopesar este texto.
    Cumpts.

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  12. Dou-lhe razão, porém, que é preciso elevar o nível. Sabe como meter isso na tola dos da agenda mediática?
    Cumpts.

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  13. Não sei. Mas se todos ajudarmos acaba-se por mudar o tom.

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  14. Inspector Jaap1/3/12 16:19

    Maria, não se esforce que essa gentinha é toda dura de ouvido. E agora, ao que sei, importam tudo quanto seja "amaricano ”, e vai de espetar dos “dicionários”
    Que raio de sorte a nossa!
    Cumprimentos

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  15. Inspector Jaap1/3/12 16:30

    Caro C.
    Não tendo qualquer procuração do caro Bic , nem tal sendo necessário, permito-me concluir que não é leitor assíduo deste espaço de altíssima cultura e erudição pela parte que lhe, a ele, diz respeito, bem assim como um bom punhado de leitores fieis, entre os quais me não conto, por não estar a esse nível, e que, o que quero é aprender alguma coisa e partilhar o meu amor à Língua Portuguesa com todos vós, o meu caro amigo incluído.… Uma ocasional brejeirice não justifica tal acrimónia... sem lhe tirar a razão.
    Cumprimentos

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  16. Inspector Jaap1/3/12 16:35

    Caro 1143:
    É o delirium tremens
    Edepois, somos nós os racistas; nóis pega os peiche
    Cumpts

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  17. Inspector Jaap1/3/12 16:38

    Notavelmente ácido e corrosivo… mas, para não variar, tristemente verdadeiro; só não vê quem não quer.
    Cumpts

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  18. Orlando Braga1/3/12 16:44

    É, de facto, um problema...

    http://bit.ly/w2lcVN

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  19. ASeverino4/4/12 11:15

    Atão e porque é que eu não posso casar com uma mula? inda nem percebi bem porquê?

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