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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Dos idiotas úteis e dos outros

« [...] O verdadeiro objectivo do A.O. parece sempre ter sido um só: o mercado interno brasileiro de livros didácticos e paradidácticos. Portugal entrou no A.O. como mero argumento: a história da unificação da língua escrita (que o A.O. na verdade não promove) como passo para a inclusão do português como língua oficial da O.N.U., as proclamações pouco substanciais que resultaram das tantas reuniões jantantes da lusofonia – tudo isso era cortina de fumaça. O que importava mesmo, desde o princípio, era fazer uma reforma ortográfica no Brasil, para uso e abuso interno. Tanto que o A.O. foi aprovado e implementado a poder de lei no Brasil, unilateralmente. Desde a implementação, o governo brasileiro não compra um só exemplar de livro que não esteja de acordo com a nova ortografia: esse é o x da questão. O resto é discurso para inglês ver. Tanto que, neste momento, não vejo ninguém preocupado, aqui, com a adesão ou renúncia de Lisboa ao A.O. O objectivo já foi atingido [...] Os países africanos dão mostra de terem percebido o engodo. Eles, que poderiam ser um benefício adicional ao A.O., do ponto de vista brasileiro. Tomara que se mantenham firmes e não adiram. Agora falta cumprir-se Portugal.»


Paulo FranchettiO Brasil, Portugal e o Acordo Ortográfico», in Tantas Páginas, 22/2/2012 (a grafia foi revista; sublinhados meus).


  O Malaca largou o Vocabulário da Academia e foi a correr e a saltar fazê-lo na Porto Editora, para somar a mediocridades de tomo a que nos habituou.
  A Priberam abrasileirou o seu dicionário a convite da Amazon que o crava de tal maneira nos iPad que não há forma de removê-lo. Isto somado ao que factura por fora com incautos e certos imbecis...
  A Leya abocanhou o naco brasileiro e não quere já saber do resto, de modo que despede em Portugal e aposta no Brasil...
  Estes são (alguns) dos outros. 
  Idiotas úteis, sobressaíram nestes dias o chocho director do saco de plástico — «A minha adesão pessoal ao Acordo Ortográfico tem a ver simultaneamente com confiança e humildade» (Expresso, 20/2/2012) — mai-lo soalheiro ex-director do dito que se tristemente estriba no ilustre pai, que Deus tem, para se atascar no atoleiro ortográfico onde Portugal entrou como mero argumento. Mas o galã da fita refulgiu há dias, qual Dom Casmurro, depois de ter estado de olhos fechados durante quase toda a récita; muito atento venerador e obrigado a Machado de Assis e à sua pátria (sua do escritor brasileiro), quis alijar-se do frete que carregou às costas de Portugal vai para cima de vinte anos — «Cavaco Silva incumbiu-me de inaugurar o C.C.B. e de assinar o Acordo», (Sol, 13/2/2012). Não se apoquente ele agora que — como dizia o Zequinhanão há cá galãs!... No elenco apinham-se para cima de 230 bestas de carga com umas dúzias de cavalgaduras de nomeada, todos à desfilada e com camadões de vermes parasitários por cima e por debaixo do pêlo. E tudo isto perante um director de cena que de tão mau orador quão fujão mete dó. 
  Portugal cumpriu-se, pois!
  Onde pus eu o Shelltox?


Bomba Shelltox. Fotografia sem data.
Estúdio de Mário Novais: 1933-1983, in
Biblioteca de Arte da F.C.G..

12 comentários:

  1. Carlos Portugal22/2/12 23:56

    Excelente, Caro Bic!
    Mas não lhes dava com o Shelltox, mas sim com o velho Sacortox, aquele do anúncio televisivo de então, em que o cliente acabava a cena dando com uma enorme marreta na cabeça do empregado de mesa, ao ritmo em que quase soletrava: Sa-cor-tox! Para cabeças duras, tem de ser, está bem de ver.

    Quanto aos dicionários electrónicos, já despedi o Flip há anos, mas a execrável Microsoft impingiu-me uma «actualização» asinante do dicionário do Word num «update» do Windows... Mas não ganhou... Fui ao ficheiro e corrigi todos os erros crassos da ortografia abortiva para Português de Lei. Quem não queira editar o dito ficheireco, poderá, todas as vezes que o asneirómetro electrónico sugerir a «correcção» abortiva, adicionar a grafia correcta ao dito, para ver se o cultiva um pouco...

    Cumprimentos.

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  2. Sempre se disse que o pior cego é aquele que não quer ver! E andam para aí uns anjinhos ceguetas que dá vontade de os espancar: se não entendem a bem, sabe-se lá se não entendem a mal!?!?
    Quanto a andarem a mudar dicionários... comigo já não ganham nem mais um euro. Tenho um de 2008 ou algo assim e muitas vezes até uso um da minha mãe que é da década de 1980... mais anterior ao acordo, só se fosse ao início do século XX. :D

    Falando em humildade... sempre achei que quem se diz humilde, na realdiade, não o está a ser... Será que me engano muito?

    Já o Word... o meu computador é suíço, dá sempre erro! Eu só tenho que fazer a revisão de texto depois, já que o meu querido não reconhece uma única palavra do que escrevo. Uma grande alegria para mim. :D:D:D

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  3. O acordo é feito para as aspirações políticas do Brasil a um lugar permanente no conselho de segurança da Onu, a que eles dão uma extrema e para nós, europeus, quase incompreensível importância.
    A ideia de mudar 4% dos vocábulos de 6 países foi para para reformar a ortografia do Brasil é tomarem-nos por tolos.
    Então o Brasil, essa grande potência cultural...

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  4. Paulo Ramos23/2/12 02:17

    Viva, excelente texto que só mostra a subserviência de uns quantos analfabetos que governam esta República das Bananas. É uma vergonha que, da direita à esquerda (à parte honrosas excepções) os de_puta_dos da Nação tenham vendido por 20 moedas a ortografia de um País e, ainda pior, sem sequer terem lido o AO.

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  5. José Leite26/2/12 11:18

    Caro Bic Laranja

    Esqueceu referir o dito publicitário na época ao «Sheltox» :

    «Sheltox mata que se farta»!

    Cumprimentos

    José Leite

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  6. Alguns tolos venderam cuidando que faziam cousa boa. Outros displicentemente (por disciplina partidária e não por representação dos eleitores) sem saber nem querer saber do que faziam: os capachos do costume. Uns poucos, por ganância particular e prática reiterada de esbulho da coisa pública em prol da própria prol.
    Todos uma corja inútil a ser corrida a pontapé.
    Cumpts.

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  7. Tal como o mosquedo, estava implícito.
    Cumpts. :)

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  8. Do anúncio não me lembra agora. Mas a cacetada seria apropriada.
    A Microsoft (e o resto) há-de boiar ao sabor da circunstãncia. Tal como as formas da a subverter.
    Cumpts.

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  9. Sim. Vale a primeira. Sendo que com ela decorre o lucro com os dicionários e livros escolares. Isto para o Brasil, que para Portugal serve o papel de capacho.
    Cumpts.

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  10. Não ganham connosco mas há amiguinhos a gerir bibliotecas, escolas, direcções-gerais e afins. Todos mui aperaltadinhos com o dinheiro dos contribuintes.
    É um fartar vilanagem!
    Cumpts.

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  11. Caro Bic
    Em cavaqueira amistosa com um compadre recordava uma emissão televisiva do início dos noventa e que, em formato de debate, se discutia o então contemporâneo acordo.
    Respigando fitas antigas, este companheiro de armas deu de caras com tal tesourinho.
    Vai daí, publique-se que, tal como agora, nada de novo e tudo na mesma.
    Se tiver um bocadinho, dê uma espreitadela que não se vai arrepender (ou vai...)http :/ vimeo.com /37597535
    cumprimentos

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  12. Grato pela partilha. Vou ver a seguir. Logo lhe comento.
    Cumpts.

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