« A evidencia do typo — fadista, — de que Lisboa é alfobre copioso, tem-se imposto, repetimos, á observação dos bellos-espiritos da litteratura moderna, alguns dos quaes, e dos mais brilhantes, o retrataram com uma fidelidade flagrante, como vamos vêr.
Ramalho Ortigão, nas Farpas, lança uma affirmação demasiado absoluta quando diz: «Em cidade alguma da Europa existe uma palavra de significação análoga a esta — o fadista.»
E' claro que o typo humano não apresenta o mesmo aspecto em todas as raças e nações. O clima e a civilisação modificam-n'o, alteram n'o. Mas ha um fundo cosmopolita, de equivalência social, que supprime as distancias e as fronteiras.
Assim, pelo que respeita á escoria da sociedade, existe em Hespanha o chulo, e em França o souteneur, que correspondem ao nosso rufião.
Todos elles vivem á custa de mulheres perdidas, cantando e bebendo nas tabernas e nos bordeis, como os fadistas portuguezes.
Em Roma ha os camorristi, gente de «mala vita», que dão uma facada por gosto, e vivem na devassidão, como os bailhões e faias da fadistagem de Lisboa.
Em Nápoles o lazarone representando a ultima classe do povo, é um inútil perigoso como o nosso fadista.
Fora da Europa, no Brazil, existe o capoeira.
Em toda a parte a sociedade tem a sua borra immunda e uma palavra, ou mais de uma palavra, para definil-a.»
Alberto Pimentel, A Triste Canção do Sul; Subsidios para a Historia do Fado, Livraria Central de Gomes de Carvalho, Lisboa, 1904, p. 46 passim.
Alberto Pimentel nesse magnífico trecho, olha para o fundo para descortinar a tal borra social… olha lá que surpresa teria, se hoje invertesse o sentido do olhar, para o cimo da pirâmide: que surpresa teria… Teria?
ResponderEliminarCumpts
Cuido que sim.
ResponderEliminarCumpts.