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sábado, 4 de fevereiro de 2012

A ideia cacográfica de Daniel Santos

Ilustração do Códice das «Cantigas de Santa Maria» (Enciclopédia livre)

 O confrade Daniel Santos do 2711 anda há dias pelos comentários, e agora num verbete, com o mote e a 1.ª estrofe da cantiga X.ª de louvor a Santa Maria, Rosa das rosas e fror das frores, de Afonso X.


Rosa das rosas e Fror das frores,
Dona das donas, Senhor das senhores.

Rosa de beldad' e de parecer
e Fror d'alegria e de prazer,
Dona en mui piadosa seer,
Senhor em tolher coitas e doores.
Rosa das rosas e Fror das frores...


 


Atribui-a a D. Dinis (rei medieval) e afirma, em sentido figurado, ser esta a grafia (velha e relha) defendida por Vasco Graça Moura e, por extensão, pelos que estão contra cacografia do governo. Deixei-lhe um recado.


« Vossemecê anda com isto há dias. Ora leia lá o poema em voz alta e pense. O que lhe soa diferente do português de hoje?
   Fror/Frores» por «flor/flores»?... — É desusado na escrita, sim, mas quanto povo troca por aí os eles por erres? Se vasculhar o país ainda terá a surpresa de achar a forma «fror» sobreviva na oralidade.
   «Piadosa» por «piedosa», idem. É como eu e o bom povo dizemos.
   «Beldad' e prazer», «fror d' alegria». A elisão não é arcaísmo. É mais desse fenómeno de metafonia (até à elisão) tão típico do purtuguês > p'rtuguês. Já se dava nos sécs. XII-XIII, veja bem. Os da reforma de 1911 conheciam-no tão bem que mantiveram as consoantes etimológicas para lhe obstar, sabia?
   «Seer» (do lat.  esse > essere — ser — por sedere — sentar) e «door» (do ac. lat. dolorem) têm vogais dobradas pela queda das consoantes intervocálicas no proto-galego ou proto-português (sécs. IX-X ou antes). Estas vogais diziam-se ainda no tempo de D. Dinis. E diziam-se no tempo de Fernão Lopes, já entrado o séc. XV. O séc. XVI limou-as, mas não de todo; veja vossemecê o que sucede com as vogais pré-tónicas em «pregar» (praedicare) ou «padeiro» (b. lat. panatariu), p. ex., que soam abertas. Percebe agora porque soam assim, quase pedindo acento? São duas. O fenómeno chama-se crase.
   Mas adiante.
   Diz vossemecê que esta é a grafia defendida pelo dr. Vasco Moura? Não é. Esta [a da cantiga medieval] estriba-se na oralidade. É a do «coiso», da fonética, é a desse tratante Malaca. Os «velhos do Restelo», os antiquados, os que se agarram ao passado e lá se quedam cegamente não são os que estão contra; os verdadeiros «velhos do Restelo» são esses acorditas, os que estão pelo «coiso». Mas são tão ignorantezinhos que nem percebem. E cuidam-se moderníssimos, já vê. Dizem ao depois altaneiros que [a] língua evolui. Evolui pois! (i.e. muda) Pela leitura do poema já viu vossemecê certamente a enormidade do que ela mudou na oralidade; deixou de se ouvir «seêr» e «doôr» para se ouvir «sêr» e «dôr». E evoluiu também na sua forma escrita, da base fonética do tempo de D. Dinis para se consolidar na tradição etymologica das demais línguas do velhinho império romano ocidental. O que os reformadores de 1911 fizeram foi golpear levianamente a evolução gráfica da língua e baldá-la envergonhadamente para a Idade Média. Envergonhadamente porque tinham noção da brutalidade do que levavam a cabo. Estes hodiernos, acorditas ignorantes e abrasileirados, o que fazem é aprofundar cegamente o golpe, tão completa é a tábua rasa cultural em que pastam. Cuidam que o Mundo começou agorinha e eles já sabem tudo. Vão direitinhos de volta à Idade das Trevas, isso é que vão.
   Cumprimentos ao D. Dinis.»


 


(Iluminura do códice das Cantigas de Santa Maria, in Enciclopédia Livre.)

9 comentários:

  1. Não sendo meu o comentário, acho-o particularmente ilustrativo quanto à suposta pseudo-intelectualidade superior dos acordistas (face às restantes massas ignaras retrógradas e avessas à modernidade que não atingem a bondade da mítica ideia de uniformização da língua).

    “Não sendo um linguista, sei que tento convencer os meus alunos de que a evolução gráfica dos vocábulos de uma língua não acontece à balda, de forma arbitrária, mas respeitando princípios universalmente reconhecidos, deles sendo exemplos o “princípio da lenta evolução” e o “princípio da inconsciência”, ou seja:

    – “princípio da lenta evolução”, que prevê que uma genuína evolução ortográfica ocorre de forma progressiva, diluída no tempo, pelo uso recorrente de uma quebra da norma, que por maioria de razão se torna norma ela mesma;

    – “princípio da inconsciência”, que prevê que uma real alteração morfológica transita do uso para a sua normalização e não o inverso, é a norma que acaba por validar a violação sistemática de uma forma, reconhecendo a sua involuntária e espontânea implantação no terreno linguístico; ocorrendo – derradeira evidência – a verdadeira evolução vocabular da norma da oralidade para a norma da escrita.

    Qualquer um destes princípios grosseiramente atropelado pelos diversos linguistas encartados a quem foi dado engendrar o (des)aolp90, impedindo que a língua cresça e amadureça pela passagem do tempo pelos distintos caminhos por onde se espraia.

    [se fosse um acordista, faria agora o discurso da tão propalada “evolução natural e que a língua evoluciona ao longo do tempo”, mas curiosamente … é imposta de forma bovina por decreto e por uns quantos iluminados que são uns únicos que sabem português e que têm a bondade fascizante de pôr cerca de 50 milhões de pessoas como cobaias ortográficas]

    Em vez de serem os falantes de uma língua a moldar-lhe o corpo à imagem dos seus usuários e seus cultores, ensina-se aos falantes uma língua decretada, sob ultimato progressivo de crime de transgressão. Isto será um exercício rotundamente inútil para a desejada aproximação dos povos e cuja consequência será o empobrecimento, perda de vitalidade e despromoção cultural de todos.”

    Suponho que o autor seja: pedronunesnomundo.com/blog/ e foi postado aqui: movv.org/2009/11/12/re-acordo-ortografico-em-curso/#comment-110707

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  2. Anónimo4/2/12 22:49

    É mesmo assim que se fala. No caso, escreve. Muitos parabéns.
    Maria

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  3. Bic Laranja5/2/12 09:45

    Obrigado!

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  4. Bic Laranja5/2/12 09:46

    Obrigado!

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  5. A orthographia segue o devir da língua, vai-se afeiçoando a ela. — Ou devia...
    Em 1770 ainda se publicava em Paris a 7.ª ed. do Abrégé de la Grammaire Françoise, do sr. Wailly, «revista e augmentada», cuja ensinava o imperfeito de aimer como amois, aimois, aimoit.... Em 1807 houve, em fim, um Nouvel Abrégé de la Grammaire Française, onde Françoise se vertera em Française, mercê da mudança de entoação desse ditongo no séc. XVIII. Nos imperfeitos dos verbos, porém, mantinha-se na grafia o ditongo oi, provando que a ortografia dum idioma segue o seu curso mas leva o seu tempo. Não é para andar constantemente mexida, mormente por humores de política jacobina.
    Cumpts.

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  6. Bic Laranja5/2/12 21:20

    Folgo em sabê-lo.

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  7. Inspector Jaap6/2/12 11:32

    Ao menos, aqui, aprende-se... eu, pelo menos.
    parabéns
    Cumpts

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