« Dizia elle [o cego] que viera encontrar em Portugal especies de ladrões fleugmaticos e frios, que não topara nos climas quentes; e que o larapio luso-brasileiro era francamente analphabeto e lerdo, ao passo que o ladrão, extreme e puramente luso, era, por via de regra, além perverso, bacharel formado.»
Camillo Castello Branco, «O cego de Landim», Novellas do Minho, v. I, 2.ª ed., Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 1903, p. 164.
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(1.ª ed. d' «O Cego de Landim» in Mercado Livre.)
Sábio, indiscutivelmente, esse brasileiro invisual de Landim.
ResponderEliminar...além perverso, bacharel formado.
ResponderEliminarvê-se bem que nesse tempo ainda não havia as novas oportunidades...se fosse agora não eram bacharéis, eram licenciados... e ao Domingo, de preferência.
Cump.
Eu gosto dos escritores portugueses da chamada Geração de 70 e todos que foram influenciados ou apareceram na sequência deste movimento literário porque são duma actualidade atroz, anda um dia destes estava no youtube e vi um número da incomparável Ivone Silva quando esta depois de sair de uma operação tem uma conta que é para além dum balúrdio, acontece que quando este número foi estreado na televisão eu tinha uns dois ou 3 anos de idade, já passei dos 30 e ainda se paga pela saúde e os larápios com este nome no sentido mais estrito da palavra são todos licenciados tal como o cego de Landim o diz e eu que diga porque no início do presente ano parti um tornozelo e no hospital me pediram um euro e dez centavos por terem cortado as ligaduras que seguravam o 1/2 gesso que eu tinha
ResponderEliminarImagine-se, Camilo já naqueles tempos recuados e socorrendo-se de uma personagem de ficção, traçou a papel químico o perfil dos políticos que decididamente eram tal e qual os que temos no presente... O paralelismo entre uns e outros é espantoso!
ResponderEliminarQuer dizer, pela pena insuspeita e rigorosa do nosso grande escritor, novelescamente embora, são descritos à perfeição os bacharéis-ladrões d'então. O extraordinário disto é que eram iguaizinhos aos que andam por aí a roubar-nos escandalosamente desde há quase quarenta anos - os licenciados ao domingo e todos os outros, licenciados ao domingo ou não.
E esta, hein? (como diria o Pessa).
Maria
Para não variar, na "mouche"!
ResponderEliminarCumprimentos, Maria!
Obrigada Alves Pereira e cumprimentos para si também.
ResponderEliminarMaria
O termo "Bacharel", da altura, correspondia a um curso de 5 anos, ao que é agora o "Mestrado pós-bolonha"; bem se vê como tem baixado o nosso nível de aprendizagem em prol da "subida" na estatística. Hoje os ladrões não são bacharel são "Doutôres", quando não, Senhores Doutôres!
ResponderEliminarHá muito, meu caro, que neste país se chama doutor a quem mais não é do que licenciado (quando o é). Um sinal da nossa presunção - de uns - e subserviência - de outros, mais do que profundamente enraizadas.
ResponderEliminarNa mesma lógica (tire-se o chapéu à coerência!), temos agora os bacharéis a querer alcandorar-se em licenciados. O que faz com que, em elementar legítima defesa, alguns sintam a necessidade de, quando perguntados, invocar um de dois novos graus académicos: o de licenciado, ou mestre, pré-bolonha.
E, sempre na mesma linha, mais uns anitos e teremos, claramente diferenciados, os "escolarizados obrigatórios" pré e pós-aborto ortográfico. Nenhum de entre eles, temo, saberá com um mínimo de proficiência aceitável, e a menos que se tenha imposto (ou lhe tenham imposto) um severo esforço extra-curricular , ler, escrever e fazer contas (isso remeter-nos-ia, para nossa vergonha, à diabolizada instrução primária do Estado Novo) decentemente.
Mas ao menos os primeiros cometerão "erros de português". Dos segundos, não se saberá muito bem aquilo sobre que erram...
Saudações,
Costa
Coisas que até um cego vê.
ResponderEliminarCumpts.
Do que se vê todos os dias são úteis à trafulhice.
ResponderEliminarCumpts.
Trabalhinho altamente especializado, cortar ligaduras. É preciso enfermeiro licenciado e tesoura certificada.
ResponderEliminarCumpts
Camilo era atentíssimo e conhecia bem a fauna das redondezas.
ResponderEliminarCumpts.
Segundo a 1.ª ed. do Cândido de Figueiredo (1899), bacharel era o que terminava as disciplinas do 4.º ano. O título, por inferior, é hoje arcaísmo banido da pompa lexical. Ultrapassado pela ligeireza dos licenciados a três aninhos. A civilização progrediu de tal maneira que há muito rareiam as mulas ruças para tanto doutor. Daí os carros de alta cilindrada...
ResponderEliminarCumpts.
Digamos que serão erros de brasileiro, para definirmos um termo minimamente inteligível.
ResponderEliminarCumpts.
trabalho especializado assim como aqueles trabalhadores honestos que andam no metro de Lisboa a roubar carteiras
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