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sábado, 30 de abril de 2011

Palacete Anjos


Palacete Anjos (Direcção de Serviços de Exploração dos Correios), Restauradores, [post 1939].
Francisco dos Santos Cordeiro, in Fundação Portuguesa das Comunicações.

 Norberto Araújo, no livro XIV das Peregrinações em Lisboa (2.ª ed. Vega, 1993), faz menção à família Anjos como «industriais e comerciantes de bom nome» que construiram no séc. XIX, sobre chão que fora dos condes de Castelo Melhor, o palacete Anjos e nele habitaram. Edifício de dois andares e águas furtadas dava frente para o Passeio Público e para a Travessa de Santo Antão. Tinha nove janelas na fachada que dá hoje para os Restauradores, três de sacada no andar nobre e no superior. Foi adquirido em 1938 pelo Estado e em 10 de Junho de 1939 entraram a funcionar nele um posto e outros serviços dos Correios. «Tôda a decoração do pavimento baixo é de Almada Negreiros; merece citação especial o quadro, à esquerda do átrio, que representa a "Mala Posta", delicada composição de tintas brandas» (Norberto Araújo, op. cit., p. 24). – Não sei se ainda se lá acha alguma coisa disto...
 O edifício foi alteado de um piso nos anos 40 e ficou despojado dos ornamentos mais notáveis da fachada: as esculturas que sobrepujavam as sacadas do andar nobre e os florões no cunhal; os pináculos originais ao gosto romântico que coroavam os cunhais foram substituídos por uns em pirâmide, em gosto Português Suave, imitando, ao que julgo, o estilo D. João V.
 Não sei se foi Policarpo Pecquet Ferreira dos Anjos (1845-1905) que mandou fazer o palacete ou se o herdou. Conselheiro, par do reino, industrial ligado à importação e exportação de têxteis, accionista do Banco Lisboa & Açores e da Companhia Geral do Crédito Predial, dirigente da Associação Comercial de Lisboa, filantropo da Real Irmandade de N.ª Senhora da Conceição da Rocha, casou em 31 de Agosto de 1871 com Alice Joyce Munró (1850‑1934), de ascendência escocesa e irlandesa. A família Anjos tinha meios e proeminência social. Uma das filhas, Matilde, veio a casar com o conde de Arnoso depois de ele enviuvar; outra, Berta, com o 12.º conde de S. Lourenço. Algures na descendência desta família entroncam os Empis, mas deixai a via genealógica que é um novelo denso...
 Policarpo dos Anjos adquiriu por 1870 outro Palacete Anjos ao Príncipe Real, n.ºs 21-23, hoje dependência do Banco de Portugal (v. Agostinho da Paiva Sobreira, «Praça de Príncipe Real VI», in Ruas de Lisboa com Alguma História). Mandou, além destas casas, fazer ainda o célebre chalet de Miramar, em Algés, onde a família passava temporadas de veraneio; o chalet (também dito Palácio Anjos) foi edificado em data incerta entre 1880-86 (Maria del Sol Adragão, Centro de Arte Colecção Manuel de Brito, &c., dissert. de mestrado em Museologia, U.N.L., 2010, p. 41), mas já estaria posto a uso em 1885, conforme se tira da data do diário de Maria Leonor, a filha mais velha do conselheiro Policarpo e de Alice Munró dos Anjos. Se bem me lembro a Vila de Miramar em Algés foi biblioteca municipal; actualmente é o Centro de Arte Manuel de Brito. Mencionou-me a prezada leitora Maria quando me deu o mote para estas nótulas, uma casa da família em Loures; não achei dela agora notícia. Ou não a soube eu procurar.
 
Família Anjos, Miramar (in www.phneutro.pt)
Família Anjos na sua casa de veraneio, o Chalet Miramar, Algés, [s.d.].
Alexandra Carvalho Antunes, O Veraneio da Família Anjos; Diário de Maria Leonor Anjos (1885-87), Oeiras, C.M.O., 2007, apud pH Neutro.

 No palacete Anjos moraram com a família duas irmãs solteiras de D.ª Alice Munró, Cristina e Francisca (Fanny). O palacete Anjos nos Restauradores tinha capela, teatro e o atelier de Fanny Munró, artista pintora discípula de Silva Porto. Fialho de Almeida refere-se-lhe a propósito da 1.ª Exposição do Grémio Artístico em 1891: «A sr.ª D.ª Fanny Munró tem tres quadrosinhos, com seguras qualidades de factura e colorido. Sente-se a estudiosa que procura, ajudada d'um mestre que não costuma lisongear precocidades problemáticas, e por isso mesmo avançando com segurança mas sem pressa.» (Vida Ironica; Jornal d'um Vagabundo, 2.ª ed., A. M. Teixeira, Lisboa, 1914, p. 290).
 Tinha-se Fanny Munró por excêntrica por acompanhar com amigos de condição social diferente. Enamorou-se dum moço Filipe de Andrade que não era da alta sociedade; correspondia-se muito com ele até que dum dia para o outro as suas cartas deixaram de ter resposta. Soube-se depois pelos jornais que Filipe de Andrade fora achado sem porquê afogado no Tejo. O mar que Fanny representava nas suas telas levara-lhe o amor. Foi um grande desgosto (v. Sandra Leandro, «Patrimónios pouco visíveis; pintoras Josefa Greno (1850-1902) e Fanny Munró (1846-1926)», in Boletim da A.P.H.A., n.º 4, Dez. 2006).
 Acha-se dispersa e em parte talvez incerta a obra da artista Fanny Munró. Na rede da Internete apenas achei esta tela numa leiloeira; não dão o título e pergunto-me se não será o Saveiro, que apresentou à exposição do Grémio, em 1892...

Fanny Munró, Saveiro [?] (Óleo s tela 48 x 63 cm, 189...)
MUNRÓ (FANNY), Saveiro (?), 189...
Óleo sobre tela, assinado. 48 x 63 cm, in São Domingos.

22 comentários:

  1. Anónimo1/5/11 01:04

    Que magnífica e pormenorizada informação que aqui me trás! Tenho de percorrer amanhã todas as ligações que deixou. A variedade de histórias ligadas às pessoas que habitaram o Palacete Anjos (mas um edifício de tão grandes dimensões, com capela, sala de teatro, etc., não seria mais apropriado chamar-se-lhe Palácio?) é fascinante.
    Este edifício é do séc. dezanove. O terreno onde foi edificado, pertencente ao Conde de Castelo Melhor, era terreno baldio, chamemos-lhe assim, ou havia sido um edifício/palácio do séc. dezoito entretanto deitado abaixo? É que ouvi dizer a uma pessoa de família que havia ali um Palácio deste século (XVIII) cujos proprietários tinham outro apelido..., mas podem ter sido todos da mesma família. É que sendo o de Loures um Palacete pombalino, na minha opinião faria sentido o dos Restauradores ser da mesma época.
    Vou ver se consigo enviar-lhe uma foto do Palacete de Loures, este sim, pode ter esta designação por ser de muito menor dimensão, pertença da mesma família.
    Estou-lhe imensamente agradecida por estes dados preciosos de que fico a ter conhecimento e que, como deve imaginar, são para guardar religosamente.
    Maria

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  2. Bic Laranja1/5/11 20:46

    O plano de edificação pombalina para esta Rua Oriental do Passeio Público não sei se foi levado a cabo, mesmo que parcialmente. O desenho dos alçados para ali existe e é do séc. XVIII. Este Palacete Anjos tal como o vemos é posterior a 1858. Mas havia edificação no local anteriormente a ele; podia ser dos Castelo Melhor, mas não sei. Sem investigação de arquivo é difícil fazer mais.
    Cumpts.

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  3. Attenti al Gatti2/5/11 00:24

    "...é dificil fazer mais." Para mim, é difícl fazer tanto. Parece-me que o tal livrinho que há muito se aguarda, tenderá para enciclopédia. Tanto melhor. Pelo menos, de leitura obrigatória em tais matérias, será.
    A.v.o.

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  4. José Caldeira2/5/11 02:36

    O Palácio Anjos na Rua Oriental do Passeio Público foi construído pelo pai de Policarpo Pecquet Ferreira dos Anjos, Flamiano José Lopes Ferreira dos Anjos (Sertã 1816 – Lisboa 1886), casado com D. Leonor Pecquet .
    Quem o afirma é o Dr. Dom Tomás de Melo Breyner , 4.º Conde de Mafra, a páginas 362 do 1.º volume das suas «Memórias (1869-1880)», (Lisboa, 1930), único volume que saiu completo em vida do Autor. A morte surpreendeu-o a meio do 2.º volume, publicado postumamente em 1934. Há poucos anos, a Família publicou alguns volumes dos seus Diários, em que as Memórias se baseiam, mas mais recentes. Ricos em informações, estão escritos em estilo telegráfico próprio de um diário.
    O Conde de Mafra refere-se afectuosamente à Família Anjos, de quem era parente próximo por afinidade, pois sua mãe, D. Emília Pecquet da Silva (1824-1895), casada com o 3.º Conde de Mafra, pertencia à família da referida D. Leonor.
    Aproveito para o felicitar pelo excelente post.
    José Caldeira

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  5. Bic Laranja2/5/11 16:53

    Em boa verdade o que aqui deixei está ao alcance todos, seguindo as pistas na rede da Internete, como aliás as remissões o demonstram. Ligar as partes e fazer uma pequena síntese também.
    Todavia fico-lhe grato. Obrigado!

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  6. Bic Laranja2/5/11 17:07

    Muito obrigado. E muito obrigado pela valiosa achega sobre quem mandou fazer a casa; era uma dúvida que tinha e não desfazia. As «Memórias de D. Thomaz de Mello Breyner» Conde de Mafra são fonte preciosa para o estudo da época. Pena não serem reeditadas.
    Cumpts.

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  7. Anónimo3/5/11 00:43

    Como sugere e bem, a marinha SAVEIRO é de certeza a que Fanny Munró apresentou na exposição que refere. Deduzo isto pelo que me foi dado ler particularmente sobre essa, mas também sobre as outras exposições da pintora.
    Maria

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  8. Bic Laranja3/5/11 18:43

    Pois! Assim me parecia.
    Obrigado.

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  9. Duarte Diniz16/8/11 20:48

    Sou um bisneto de Polycarpo Anjos, e fiquei encantado com a informação. Só queria acrescentar um detalhe; Tanto quanto julgo saber, a casa do largo do Príncipe Real era de Polycarpo Ferreira dos Anjos, Tio de Polycarpo Pecquet Ferreira dos Anjos. O Tio Polycarpo é que foi dirigente da Associação Comercial Portuguesa, onde existe um retrato dele pintado. Foi pessoa importante no seu tempo, tendo sido convidado por El Rei D. Luís I para ser dirigente e fundador de uma instituição de proteção a crianças pobres. Não teve descendência

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  10. Prezado Sr.,
    Alegra-me que tenha chegado até aqui e fico-lhe muito grato pelo que me esclarece. Permite-me corrigir o passo do palacete Anjos no Príncipe Real que precipitadamente atribuí a Policarpo Pecquet. Outro tanto por nos distinguir qual foi dirigente da Associação Comercial, embora desta imprecisão me salve Norberto de Araújo, por quem me guiei.
    Seguindo a pista do Policarpo tio (Policarpo José Lopes dos Anjos) vejo agora que também foi comendador de Cristo e da Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
    Mais uma vez muito obrigado!
    Cumpts.

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  11. Miguel Fabre26/11/11 15:33

    Depois de ler o presente post, gostaria de perguntar-lhe se através das suas pesquisas terá tido acesso à toponímia da rua oriental do passeio público? A pregunta prende-se com o facto dos meus trisavós terem sido proprietários do numero 19 até cerca de 1870. Tenho alguma curiosidade em saber qual a, real, localização deste n.º 19 e actual correspondência na av. da liberdade.
    Antecipadamente grato
    Miguel Fabre

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  12. Miguel Fabre26/11/11 15:37

    A "pergunta"... claro está!

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  13. Bic Laranja3/12/11 20:35

    Lembro-me de ter lido algo sobre os Restauradores e sobre quem tinha ali casas no lado ocidental; não me recorda agora se foi no Norberto de Araújo, se onde foi.
    Desculpe-me esta resposta agora ser só assim. Logo que tenha tempo tentarei recuperar o caso e do que achar dele darei notícia.
    Cumpts.

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  14. Boa noite, Gostaria de saber mais detalhes de sua família, sou Tataraneto de Vicencia ferreira dos anjos e Tomaz Duarte de Aquino por parte de avó. Será que somos parentes. Estou tentando descobrir origens de minha família.
    Meu contato: https://www.facebook.com/JuarezdeLimaAlmeida

    Obrigado pela atenção.

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  15. José Pinheiro de Figueiredo3/4/15 07:16

    Bom dia.
    Andava a vadiar pela web em busca de fotos antigas de Linda-a-Velha quando encontrei o seu blog e a referência a Fanny Murnó.
    Encontrei, há muitos anos, duas telas de Fanny. Comprei ambas, cedi uma a uma familiar e guardei a outra.

    Caso tenha interesse incluir esta tela no seu blog, diga-me. Terei todo o gosto em enviar-lhe uma foto.
    Cumprimentos cordiais

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  16. Fico-lhe grato do interesse e da generosidade. Terei o maior prazer em publicar a fotografia que se dispõe oferecer-me. Pode dirigir-ma a biclaranja[a]sapo.pt .
    Cumpts. :)

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  17. Margarida de Lemos4/6/15 17:48

    O José Caldeira tem toda a razão e está completamente certo. O Palacete foi mandado construir por Flamiano Lopes Ferreira dos Anjos meu trisavô onde morreu. Efetivamente sua mulher Leonor Magdalena Caetana Pecquet dos Anjos era parente de Emília Pecquet da Silva mulher do 2º Conde de Mafra.

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  18. Quem sabe sabe. Muito obrigado da sua confirmação.
    Cumpts. :)

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  19. Margarida de Lemos5/6/15 00:13

    Ando agora na pesquisa dos Pecquet e já encontrei dados muito interessantes.

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  20. :)
    Continuação de boas descobertas!

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  21. Helena Aguas23/12/16 09:00

    Bic, olá! alguns links estão agora sem saída, infelizmente... valerá a pena dar um jeito nisso ;) Natal feliz!*

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  22. Remissões repostas.
    Feliz Natal para si e para os seus.
    Obrigado!

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