| início |

sábado, 23 de abril de 2011

Caes do Sodré (post 1894)

Cais do Sodré, Lisboa, (Col. Seixas, post 1894)
Praça do Duque da Terceira, Lisboa, (post 1894).
Col. Seixas, in José Sarmento de Matos (org. e coord.), Lisboa à Beira Tejo (1860-2010), [Lisboa], C.M.L./E.G.E.A.C., [2010], p. 109.



 Vejo à lupa a fotografia do vidro partido e observo a gente que caminha aqui mais perto, na praça do Duque da Terceira (antiga dos Remolares; v. Agostinho de Paiva Sobreira, «Praça Duque da Terceira I-IX», in Ruas de Lisboa com alguma História). Dirigem-se para cá e é notório o ponto de fuga: a estação do caminho de ferro. Persigo-lhe os detalhes; é gente janota. Damas e cavalheiros vindos do comboio seguem o rumo próximo, mais para a Rua do Alecrim, mais para o Corpo Santo. Por contraponto, dou atenção aos que vão para lá, dois junto ao carro americano e mais mais chegados aos barracões da Ribeira; são tipos populares, de jaqueta e barretina saloia; varinas de canastra à cabeça também.
 A estação está apinhada de carruagens. A linha do caminho de ferro parece desviada do que é hoje, mais para a beira do rio, mas não; foi o aterro que se estendeu entretanto rio adentro. Mais cá a margem chega quase diante da praça. Uma carruagem deve ter tomado passageiros e vem aqui perto; o boleeiro traja chapéu alto. Outra saindo do molho parece pôr-se a caminho. Ao pé do quiosque duas carroças seguem para lá, como as peixeiras e os saloios, rumo aos barracões do mercado.
 Aquela casa mais ao centro não sei o que fosse.
 O quiosque, na embocadura da 24 de Julho em aterros, está às moscas; uma barraquinha de refrescos (?) mais à esquerda parece ter um ou dois fregueses.
 Acho dous guardas na fotografia; um à sombra da guarita junto ao muro à beira Tejo; outro à sombra da estátua. Sombras longas do quadrante Sul dão hora vespertina ao cliché, mais em dia de Outono que de Verão. Ainda assim há gente de sombrinha (4 damas, 1 menina e 2 cavalheiros).
 O Arquivo da Câmara datou esta fotografia como posterior a 1877; tomou como referência a inauguração da estátua do Duque da Terceira. Datar com referência à inauguração do troço do caminho de ferro no Cais do Sodré (4/9/1894) é mais exacto.
 A meia década do fim séc. XIX, pouco mais ou menos, o aspecto do Cais do Sodré era como o benévolo leitor vê aqui, do cimo do Grand Hotel Central.
 Mantêm-se a estátua e a calçada portuguesa original na praça abaixo. Não sei se se avista o vulto da igreja das Necessidades. O Tejo coalhado de mastros é uma miragem.

14 comentários:

  1. Há dois aspectos absolutamente deliciosos nesta imagem. Um, é aquele transporte (carruagem?) de passageiros que, penso eu, antecede o eléctrico, puxado a dois cavalos e digno de uma pintura a óleo dado o pitoresco da imagem. Senão, vejamos: senhoras de saias até aos pés; sombrinhas ou chapéus de chuva (possìvelmente estes últimos, dado estar de chuva, porque os homens também os usam) e que, curiosa e simultâneamente, traduz um relativo conforto ainda perfeitamente imaginável nos dias de hoje. Seria de seguir o exemplo, não com carruagens destas òbviamente, mas sim um retorno ao confortável, arejado e 'amigo do ambiente' (como soe dizer-se) eléctrico, sobretudo agora que a poluição automóvel ultrapassou os limites do suportável.

    O outro: o lindo desenho e absolutamente perfeito trabalho de empedramento no passeio de que se vislumbra um bom pedaço em primeiro plano.
    Que saudades da nossa inigualável e belíssima calçada portuguesa. Tempos recuados esses - e ainda não tantos quanto isso, sómente cerca de quarenta anos - em que mestres da pedra encheram os passeios de toda a Lisboa e de muitas outras cidades do país com desenhos primorosamente executados por quase perfeitos cubos de calcário e basalto, autênticas maravilhas para a vista, que nos encantavam e particularmente os turistas que nos visitavam. Esses eram artistas no verdadeiro sentido do termo e tinham orgulho na sua profissão. Afinal eram chamados com toda a propriedade os mestres-calceteiros.

    Hoje os poucos que entretanto aprenderam e seguem a profissão, são requesitados por alguns países para lhes ensinar este difícil ofício que requer aptidão, total dedicação e muito trabalho. Por outras palavras, engenho e arte. Qualidades estas que os nossos antigos calceteiros dominavam na sua plenitude.
    Maria

    ResponderEliminar
  2. É o carro americano. O americano foi uma inovação de vulto no transporte urbano. Creio que se estabeleceu em 1873 em Lisboa e havia vários particulares explorando dessas carruagens puxadas por muares. O mais famoso foi o «Chora». Ganhou a alcunha por andar sempre a chorar-se de a Carris lhe roubar a clientela. Quando a Carris inaugurou a tracção eléctrica condenou estes carros americanos à extinção. O «Chora» ainda continuou até aos começos da Grande Guerra, salvo erro. Desapareceu e quando tornou nos anos 20 veio com camionagem; tinha garagem na Venda Nova e explorou as carreiras para os arredores até à nacionalização. O «Chora» era o conhecido Eduardo Jorge da Amadora.

    Tem graça dizer que estava a chover. Reparei nas sombras tão nítidas e nem me ocorreu. Mas tem razão, sim senhora; cavalheiros de sombrinha, onde estava eu com a cabeça! São chapéus de chuva. Tempo incerto, choviscos e, com tantos trabalhos em curso, tanta obra por acabar, arrisco a fotografia para pouco depois da inauguração do comboio no Cais do Sodré. No Outono de 1894.

    A calçada portuguesa anda numa lástima. A Câmara acabou com os calceteiros e não cura dessas ninharias. Só de fanfarronadas como a Frente Tejo, que movimentem muita massa.

    Cumpts.

    ResponderEliminar
  3. E nem sombra, creio, dos estabelecimentos de comes e bebes instalados posteriormente em edifícios de armazenagem. Sinal de uma sociedade mais sóbria...

    Abraço

    ResponderEliminar
  4. Bic Laranja23/4/11 23:10

    É possível, sim.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  5. Achei imensa graça à história que conta sobre a origem dos "Chora". Tenho uma vaguíssima ideia de alguém na família (ou, o que é mais certo, ter lido algures) ter falado nesses curiosíssimos transportes. Tenho pena de não se terem prolongado no tempo de modo a ter podido conhecê-los. Acho-os uma delícia. Acho piada a tudo o que é antigo (influência familiar...) e estèticamente belo. Se lhe juntarmos originalidade e funcionalidade, melhor um pouco. Por outras palavras, tudo o que de um modo ou de outro tenha marcado positivamente uma época.
    Como por exemplo estes engraçadíssimos "Chora".
    E muito obrigada pela sua resposta.
    Maria

    ResponderEliminar
  6. Caro BIC LARANJA Em primeiro lugar os meus agradecimentos pela referência. Seguidamente quero felicitá-lo pela maneira simples de se poder contar história observando uma foto já velhinha (1894), de uma zona tão especial. Os meus parabéns! Aproveito para lhe desejar uma PASCOA FELIZ. Cumpts . APS

    ResponderEliminar
  7. Bic Laranja27/4/11 14:25

    De nada. Obrigado eu!

    ResponderEliminar
  8. Bic Laranja27/4/11 15:31

    Quem agradece sou eu; o apreço, os votos e as Ruas de Lisboa com alguma História.
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  9. Attenti al Gatti28/4/11 00:51

    Boa partida a do vidro partido da fotocopiadora. A propósito, a foto, especialmente quando ampliada, parece tirada através do vidro estalado de uma velha janela. É curioso como certos pequenos pormenores prendem a atenção de várias pessoas. É o caso dos chapéus de chuva/sombrinhas. A mim parece-me que estavam abertos devido ao Sol e não à chuva. Se chovesse o guarda estaria dentro da guarita e não cá fora e os transeuntes não circulariam tão calmamente, estando até alguns parados. Ainda hoje os mais velhos protejem-se ferozmente do Sol, nomeadamente em certas alturas do ano. Também nestes últimos dias, na Baixa, tenho visto japoneses de sombrinhas abertas, mantendo uma tradição que por cá já se perdeu.
    A.v.o.

    ResponderEliminar
  10. Bic Laranja28/4/11 11:07

    Essa também foi a minha primeira interpretação, que não excluí de todo. Podia dar-se que fosse chuvisco. O céu ao longe parece limpo. As sombras na rua em baixo porém são nítidas; Sol e encoberto.
    Sobre a janela, note que a textura do papel do livro interfere com grande resolução de digitalização. Será isso?
    Cumpts.

    ResponderEliminar
  11. Attenti al Gatti29/4/11 21:19

    Não. Refiro-me apenas a uma mera aparência (foto tirada através de uma velha janela) que lhe confere um aspecto peculiar e lhe aumenta, na minha opinião, a componente nostálgica.
    A.v.o.

    ResponderEliminar
  12. Bic Laranja30/4/11 23:32

    Agora percebo! Sim, é uma "perspectiva" interessante.
    Cumpts. :)

    ResponderEliminar
  13. Embora atrasado, aqui fica os meus agradecimentos pela referência. Saúde! APS

    ResponderEliminar