Avenida Duque de Ávila com a estação da Carris, Arco do Cego, 1940.
Eduardo Portugal, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Procurou-me há mês e tal uma prezada leitora, amiga das coisas do fado, se o actual n.º 197 da Rua D. Estefânia teria tido em tempos os n.os de polícia 207-211, onde foi em tempos a casa de fados Floresta do Arco do Cego.
Para melhor situar agora o benévolo leitor digo antes de mais que, no lado dos ímpares, não vai a Rua Dona Estefânia actualmente além do n.º 197, que faz esquina para a Avenida Duque de Ávila. E sucede que os n.os de polícia parecem ter encolhido, fruto talvez de reedificações com emparcelamento de lotes. De toda a forma no lado dos pares os n.os polícia não diminuiram ao chegar à Duque de Ávila. Mas já lá iremos...
Na resposta que dei à prezada correspondente não consegui eu desfazer-lhe a dúvida pela simples razão de que não achei prova cabal. Nada garantia que não tivesse havido n.os de polícia superiores ao 211 e, portanto, os n.os 207-211 pudessem ter sido, não onde hoje pousa o n.º 197, mas um pouco antes do fim da rua.
Cuidei ontem, pensando no caso, que a fotografia acima (que me lembrava de ver com boa definição no Arquivo Fotográfico), em ampliando-a, o n.º de polícia que se visse na casa à esquina da Rua Dona Estefânia (a casinha branca no canto inferior esquerdo) talvez esclarecesse o caso. Mas afinal o que se nela vê é o n.º 35; é da numeração, portanto, da Av. Duque de Ávila. O assunto parecia arrumado, pois da Rua D. Estefânia não se vê nada.
Entretanto esta manhã, lendo algo sobre as portas fiscais da Circunvalação de 1852, aparece-me inesperadamente diante o seguinte:
« [POSTO] DE D. ESTEFÂNIA (criado por decreto de 17 de Setembro de 1885, para substituir o do Arco do Cego, que ficou inutilizado quando se abriu a rua de D. Estefânia. A casa do posto fiscal conserva-se, com aspecto quási igual ao primitivo, na rua de D. Estefânia, n.os 209 e 211; a casa de despacho estava na esquina fronteira, no sítio do prédio que tem frentes para esta rua, n.º 128, e para a avenida Duque de Ávila, n.os 23 a 31; »
A. Vieira da Silva, «Os Limites de Lisboa. Notícia Histórica. II - Do meiado do séc. XIX à actualidade (1940)», in Revista Municipal, I.ª série, n.º 6, 1940, p. 14 (sublinhado meu).
Julgo do que se pode ler no trecho, que não sobra já dúvida que os n.os 207, 209 e 211 que existiram em tempos na Rua D. Estefânia eram os últimos ao chegar à Av. Duque de Ávila; a casa do posto fiscal de 1885 conservava-se com traça quase idêntica à primitiva em 1940 e seria um pouco à esquerda da casinha branca na imagem, que exibe a tabuleta 'capilé' na fachada. Se seria a casa de fados Floresta do Arco do Cego não sei, mas cuido que deva lá ter permanecido essa casa até à construção do actual edifício com n.º 197 que faz agora lá sombra...
Isto no lado ímpar.
No lado par a Rua D. Estefânia terminava no 128. A casa que lá vemos hoje (subtraindo os andares que lhe acrescentaram há uma dúzia de anos) é com certeza a que lá estaria em 1940, onde funcionou a Casa dos Estudantes do Império - já aqui a mostrei. Mas, claro, nada tem que ver com a casa de despacho do posto fiscal do Arco do Cego de 1885. Salvo ter o n.º 128, que se mantém hoje, apesar de ter estado para demolir.

Prédio para demolir (Rua D. Estefânia, 128), Arco do Cego, 1966
Augusto de Jesus Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
Revisto às 11h20 da noite.
Peço desculpa pela insistência - e a obra sobre Lisboa, a Bendita Lisboa que é terra natal até de alentejanos, contradição tamanha?
ResponderEliminarAbraço
Na decada de 90 os edificios que se encontravam neste canto já há muito que esperavam a sentença final e se encontravam totalmente emparedados. O cinema Avis estava no lote. No extremo oposto, um pouco recuado e escondido por um muro de tijolo que ocupava o espaço que devia ter sido de uma grade, existia um edificio baixo - quase um anexo estilo garagem - que me diziam ter sido uma fábrica de gelados (o paraíso de qualquer criança) e que mais tarde me disseram também produzir blocos de gelo.
ResponderEliminarTinha em frente uma paragem do eléctrico 19, ainda com resguardo em chapa, que só desapareceu quando todo o pavimento da Rua D.Estefânea foi renovado.
parabéns pela música escolhda e a zona da estefânia está toda desfigurada
ResponderEliminarNão há contradição alguma. A quem olhe do Alentejo Lisboa é além... Tejo.
ResponderEliminarGrato pelo apreço!
Toda a cidade está desfigurada.
ResponderEliminarObrigado!
Lembro-me de ouvir dessa fábrica de gelados. Nunca a conheci. Devia ser ela a posto fiscal.
ResponderEliminarRecorda-me dessa cobertura da paragem do eléctrico; não era daquelas de cobertura rampante que só tinham prumos atrás?
Cumpts.
Muitíssimo obrigada por este excelente verbete de resposta à minha questão. Excelente e utilíssimo!
ResponderEliminarQuem sabe, sabe! E, saber quem sabe, sabe bem... :-)
De nada. Obrigado eu pela oportunidade.
ResponderEliminarCumpts.
Dificilmente a fábrica dos gelados (Rajá, talvez) tería sido o tal posto fiscal. Situava-se a mesma no interior do quarteirão, nas traseiras dos prédios da esquina e ia até ao cinema Avis. A entrada fazia-se poucos metros abaixo da casa branca do Capilé, através de uma espécie de viela empedrada.
ResponderEliminarA panorâmica da Estação do Arco do Cego, de que só resta o carbarn, triste, abandonado e sem qualquer utilidade, ilusta o que podería ter sido um excelente Museu da Carris, não fosse a garganeirice de certas pessoas. Assim, ao contrário do que acontece actualmente, suportaria perfeitamente a comparação com o Museu dos STCP na antiga Estação de Massarelos, no Porto.
A.v.o.
Não conheci a fábrica; aveitei a hipótes do posto sem saber. Era ela de traça mais moderna ou de estilo pouco ajeitado a um posto desses?
ResponderEliminarConcordo consigo, já o disse aqui algures, sobre o aproveitamento da estação do Arco do Cego para museu da Carris.
Cumpts.
Floresta do Arco do Cego
ResponderEliminarTalvez eu possa dar uma ajuda. Quem vinha do cinema Avis e entrava na Rua de D. Estefânia,antes de uma tipografia, julgo que se chamava Sociedade Tipográfica e em frente mais ao menos ao Colégio Lusitania feminino (Rua D. Estefânia, 128 ??), havia uma entrada para as trazeiras do cinema e de umas casas térreas, nesse "pátio" havia uma fábrica de gelados e um café/cervejaria que estava aberto até tarde pois um primo meu, mais velho, era nesse café, do qual não sei o nome, que dizia passar algumas horas da noite.
Espero ter dado uma ajuda, como fui criado na Avenida Rovisco Pais, não me lembro de nenhum café com uma certa dimensão, ao nível da rua, desde o cinema Avis até à tipografia e esse café a que me refiro pode muito bem ter sido a Floresta do Arco do Cego.
Obrigado!
ResponderEliminarCumpts.