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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O mundo da transparência

 Ouvi de manhã duma Parque Escolar, uma sociedade comercial com capital social do Estado (Entidade Pública Empresarial, é como se chama às empresas públicas agora) cujo negócio, sem os floreados panfletários da moda, se parece resumir em requalificar e modernizar os edifícios [das] escolas secundárias [...] e uma correcta gestão da conservação e manutenção dos edifícios após a intervenção. Se a primeira parte parece dizer um comum trabalho de obras públicas, a segunda já elabora muito mais: em rigor não é singelamente conservar edifícios, nem propriamente executar a manutenção de coisa nenhuma; é antes gestão – correcta, não vá alguém supor o contrário – da conservação e da manutenção. Este estilo de dizer as coisas é típico de gente que faz que sabe, simula que faz, mas que no fim só sabe pagar para alguém fazer. E só paga porque é dinheiro dos outros...
 Isto leva-nos de volta à primeira parte (a requalificação e modernização de liceus) que é, afinal, mais elaborada do que parecia: algures no capítulo 5 do Relatório de Sustentabilidade (não recomendo a leitura mas não há perigo em só consultar) desta tão modelar empresa percebe-se que não passa ela duma intermediária para adjudicar empreitadas. — A bem dizer parece-me que nem tem gente capaz de redigir os próprios relatórios. O de sustentabilidade, p. ex., foi encomendado a uma tal Leadership Business Consulting com o objectivo de relatar, a todas as partes interessadas da empresa [as não interessadas e as que não forem da empresa não são chamadas], a estratégia, os principais compromissos e desafios da [própria] Parque Escolar. Imagine-se que gente tão à toa! Esta espécie de empresa contratou uma consultora para lhe ela ditar a cartilha por onde se há-de guiar. Talvez a verdadeira cartilha seja outra...
 Ouvi, pois, de manhã que esta Parque Escolar, nas escolas secundárias em obras, não será meramente uma dona de obra sem manejo de pá nem balde. Ela torna-se efectivamente proprietária dos imóveis. Talvez o negócio desta empresa não seja só fazer obras com fato e gravata mas também além disso ir fazendo uma rica engorda imobiliária. Não tarda está boa para o talho das privatizações.

Liceu Pedro Nunes em obras, Lisboa (J. benoliel, c. 1909)
Liceu Pedro Nunes em obras, Lisboa, c. 1909.
Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

(Texto revisto à meia-noite.)

6 comentários:

  1. Attenti al Gatti21/2/10 23:15

    Sobre este tema vd. "O Atalho", na coluna de Daniel Oliveira, pág. 37, do "EXpresso" desta semana. Um complemento muito interessante.
    A.v.o.

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  2. Bic Laranja22/2/10 21:27

    Grato pela indicação. Cumpts.

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  3. A posse dos edifícios permite que os mesmos sejam dados como garantia para o financiamento necessário para as obras e outras despesas (consultores incluídos).

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  4. Ah! E o Estado, sendo dono dos imóveis, não vale nada como fiador? Nem sendo dono dum banco?
    E os consultores também exigem imóveis como garantia?!
    Cumpts.

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  5. Anónimo1/3/10 23:57

    O Estado entrou com o capital inicial (1,4 milhões de euros) e já o aumentou para mais de 90 milhões.

    Também entrou com dinheiro do PIDDAC (mais de 20 milhões em 2007 e 2008).

    Mas o programa de modernização e manutenção da rede pública de escolas secundárias e outras afectas ao Ministério da Educação vai precisar de muito mais.

    O Estado deverá aumentar o capital da Parque Escolar com a transmissão de bens do domínio privado do Estado. Mas estes não são dinheiro, a menos que sejam alienados.

    A Parque Escolar prevê investir 2,44 mil milhões de euros nas primeiras 205 escolas. Para tal, terá que obter financiamento bancário, daí a minha afirmação relativamente às garantias que poderá oferecer.

    E não creio que o Estado dê o seu aval aos empréstimos.



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  6. Bic Laranja2/3/10 10:51

    Como não dá o Estado aval aos empréstimos? Não é a Parque Escolar do Estado? Será alguma a criação escapou ao criador?
    Mas deixe, que devo ser eu que não entendo certas coisas.
    Cumpts.

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