Panorâmica de Lisboa, 1890-1945.
José Artur Leitão Bárcia, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
O título vago que o arquivista deu a esta imagem é exactamente isso: vago. Com um pouco mais de poesia e partindo do âmbito cronológico conhecido (1890-1945) poderia titulá-la Hortas de Lisboa.
— Bem! A Lisboa das hortas quadrava-se bem com a cronologia dada até 1910 ou, vá lá, 1920, não 1945...
De todo o modo que vemos na fotografia?
— Isso mesmo: hortas. Hortas, quintas, casario disperso, caminhos entre muros. E um panorama tirado do alto...
Ponhamos por instantes a hipótese da Penha de França que é um monte alto (o Monte de S. Gens também é, bem sei, mas em 1890-1910 o panorama não era assim ermo). Ora o panorama tirado da Penha poderia dar logo abaixo o esparso casario de Arroios: a igreja e o hospital a um lado e, rodando o observador o seu olhar para nascente, mais algum casario veria trepando para o Alto do Pina (Rua Barão de Sabrosa); mais ao longe, continuando, veria o Alto de São João, e por aí até ao Tejo. Pelo meio disto mais não haveria senão... hortas, pois. E acompanhando o fio deste olhar à volta desde a Penha de França estaria logo abaixo a circunvalação de 1858, entre Arroios e o Alto de São João, ou seja: a Rua do Conselheiro Morais Soares, necessariamente entre muros nesse tempo da Lisboa das hortas. E assim sendo, a nesga do casarão que se vislumbra à esquerda na imagem vamos lá ver se não é o hospital de Arroios? — Ora bem! — Neste caso então, confirma-se que a estrada que rasga o panorama da esquerda à direita é a Rua Morais Soares no troço que parte hoje da Praça do Chile.
O caminho que parte do fundo da imagem haverá pois de ser a antiga Travessa do Caracol da Penha (hoje Rua dos Heróis de Quionga) que liga a Rua Marques da Silva (antigo Caracol da Penha) à Morais Soares - umas casas que se vêem a encobri-la haviam de ser da Quinta do Saraiva. - E o caminho que serpenteia para Norte na margem direita da fotografia? - Só pode ser a Azinhaga do Areeiro (coincide grosso modo com as actuais ruas Carvalho Araújo e Abade Faria); perto do Arieiro entroncava esta azinhaga com a Estrada de Sacavém cujo casario disperso se espalha numa diagonal para o horizonte na imagem acima.
Parece-me, pois, que é isto.
Só mais uma nota: quem c.1900 subisse desde Arroios o troço reconhecido aqui da Morais Soares apanharia à sua mão esquerda a Horta da Cera cujo muro comprido — ao meio com portão — se vê nitidamente na imagem. Logo depois entrepunha-se-lhe o muro e as casas da Quinta da Brasileira estreitando a via; esta propriedade ocupava sensivelmente a área delimitada hoje pelas ruas Actor António Cardoso, José Ricardo e Edith Cavell, a N da Morais Soares. Quando finalmente chegasse por alturas da Calçada do Poço dos Mouros teria então, ainda à sua mão esquerda, o Retiro do Manuel dos Passarinhos que coincidia pouco mais ou menos com o actual Largo Mendonça e Costa. Neste pequeno percurso havia à direita a Quinta do Saraiva e, depois da Travessa do Caracol da Penha (Heróis de Quionga), a Quinta do Manuel Padeiro. Mas não sigamos mais...
Retiro do Manuel dos Passarinhos, Lisboa, c. 1900.
Joshua Benoliel, in Marina Tavares Dias, Lisboa Desaparecida, v. 1, Lisboa, Quimera, 1987.
domingo, 22 de novembro de 2009
Uma panorâmica de Lisboa
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Muito curioso e interessante!
ResponderEliminarE como quem pouco faz, muito exige, não há possibilidade de datar a fotografia com precisão ou uma margem de erros de poucos anos?
As edificações mais próximas representadas que pude identificar correspondem com muita exactidão à planta topográfica 12 K do Levantamento da Planta de Lisboa. A data da planta é de 1909. Não me adiantaria muito a esta data.
ResponderEliminarCumpts.
Muito obrigado pela sua boa vontade e prontidão!
ResponderEliminarFrancamente, não tenho presentes os dados da aviação, mas, se a fotografia é de avião e não de balão a data não iria para 1914/15 - não muito longe daquela que fixou.
Aproveito para dar os parabéns pelo blog, que visito com assiduidade muito gosto.
Falta um ponto de interrogação em "1914/15"?
ResponderEliminarAgradeço o link da planta. :)
Bela panorâmica!
ResponderEliminarAgora tenho de olhar bem com atenção para a coisa…
:-)
Abraço
O post é muito interessante, mas não tenho competência para adiantar nada que possa ajudar a datar a foto.
ResponderEliminarVenho só choramingar, porque o Marques da Silva que deu o nome à rua referida no texto não é, como pensei inicialmente, o Arquitecto Marques da Silva, pai da escola de arquitectura do Porto (de onde saíram Álvaro Siza e Souto de Moura, por exemplo), autor, entre dezenas de outras obras de relevo, do Teatro Nacional de S. João, da estação de S. Bento, da Casa de Serralves (parcialmente)e vulto incontornável da cultura portuguesa da primeira metade do século XX.
Sim senhor! Trabalhinho assím, nem o Sherlock Holmes! Quanto ao Lgº Mendonça e Costa, como sempre o conhecí mais coisa, menos carros, com é actualmente, intuí automáticamente que anteriormente só por lá haveriam terrenos de cultivo. Afinal a realidade, ao tempo do Manuel dos Passarinhos era bem diferente. Podia muito bem ser um cenário para algumas personagens de Eça de Queiroz. Uma caixinha de surpresas,este blogue.
ResponderEliminarQuanto á foto das tais "varandas" da Barão de Sabrosa, o prédio que se lhes segue tinha, à esquina, como é visível um estabelecimento. Tratava-se de uma padaria, com a área do balcão toda decorada com azulejos representando coloridas cenas campestres, guarda-ventos espelhados e tetos de estuque trabalhado. Um primor. O próprio prédio era muito bonito, todo revestido a azulejo e com estatuetas na platibanda. Foi tudo substituído por um mamarrcho execrável.
A.v.o.
A fotografia é tomada do alto da Penha de França e é de certeza anterior a 1915. Nesse ano já há notícia da Rua Edith Cavell, que não existe na panorâmica.
ResponderEliminarCertezas maiores só a história do loteamento destas quintas nos dirá.
Cumpts.
Pena não ter mais qualidade. Cumpts. :)
ResponderEliminarMuito obrigado!
ResponderEliminarDe feito o Marques da Silva do Caracol da Penha era só um comerciante dos Anjos. Mas não estamos numa era em que empreendedores valem mais que eruditos? Pois já vê...
Cumpts.
Só o lado baixo do Largo Mendonça e Costa tinha casas. O restante era uma quinta, tal como conjecturou, cortado pela Tr. dos Baldaques, que descia até às casas.
ResponderEliminarCumpts.
P.S.: As estatuetas na platibanda e a azulejaria na fachada lá no prédio do Alto do Pina lembro-me. Os estuques trabalhados e os interioes só os posso imaginar. Valores artísticos do género derretem-se por grosso. Nem sei que lhe diga...
Confundir a Penha de França com uma vista de avião! Obrigado pelo seu esclarecimento.
ResponderEliminarMuito obrigada por estas e outras preciosidades que coloca aqui no seu blog a Lisboa de que meu Pai contava .
ResponderEliminarTambém me pus essa hipótese quando vi a imagem pela primeira vez. É uma panorâmica bastante alta.
ResponderEliminarCumpts.
De nada. Foi um gosto. Cumpts.
ResponderEliminarÉ bem verdade... Assim torna-se difícil descobrir contornos familiares.
ResponderEliminarNão lhe dá vontade de ter as fotos todas do arquivo em tamanho "reconhecível"? A mim dá. E algumas, aqui da minha zona, bem gostaria de ter...
Quanto será que cobram, nos dias de hoje, para fazer uma reprodução de jeito? Sei que o preço varia consoante o fim a que se destina… O Bic sabe valores?
Abraço
Não. Não sei. E o original desta no arquivo está mais manchado.
ResponderEliminarCumpts.
lisboa antes dos especualdores imobiliarios, coisa rara
ResponderEliminarEram outros tempos. E havia menos gente a estragar e a deixar estragar.
ResponderEliminarCumpts.
O fios eléctricos que cortam o céu vindos de um poste implantado atrás do fotógrafo, poderão ser uma boa referência para a datação aproximada da foto, caso se saiba em que época se procedeu à electrificação dos arredores de Lisboa. Terá sido antes de 1920?
ResponderEliminarTambém é curioso o facto do observador aparentemente se encontrar mais ou menos à mesma altitude do Casal Vistoso no alto da sua colina do Areeiro (lado direito ao fundo)
Respondo-lhe com atraso, mas não me apercebi do seu comentário antes.
ResponderEliminarTemo bem que os fios sejam a chapa fotográfica mutilada. Mas, a não serem, eis uma boa pista para a datação. Todavia terá de ser antes de 1914-15.
Da Penha vê-se por cima do Casal Vistoso. Tanto que se lhe apanha o horizonte baixo a seguir, até à Portela.
Cumpts.