| início |

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A régua da felicidade

 Uma das petulâncias mais enjoativas deste mundo contemporâneo é a de medir com uma régua o que não é palpável. Para medir a felicidade, por exemplo, a ideia que dá é que bastam uns tipos de bata branca colhendo cuspo numa proveta e, ao depois de centrifugarem as amostras na Bimby dum laboratório universitário, a conclusão se há-de ler, infalível, num talão de supermercado: 66 a 73% dos portugueses andam satisfeitos ou são felizes.

 Sem margens de erro como nas sondagens e com direito a editorial na telefonia amanhã às dez.

 Melhor só a indignação hoje do jornalista da rádio com o resultado: - "Como é possível?! Tantos portugueses não conseguirem aquecer a sua casa em noites frias de Inverno, não poderem gozar uma semana de férias, não poderem dar prendas no Natal, e apesar disso serem felizes?!..."

 Melhor ainda a conclusão a seguir: - "Pobres e resignados. Vem isto do Salazar" - que não sabe o jornalista se era bom economista, mas que - "era muito esperto e entendia muito bem a índole dos portugueses." - Mantê-los como eram, quando eles o eram por sua natureza foi uma maldade que não se faz.

 É um brilhante raciocínio. Com a mesma lógica, outros libertadores - talvez não podendo inculpar Salazar, por anteriores a ele - inculparam a Inquisição e o absolutismo. Para esses, tanto fazia que o regime de 1820 levasse de vigência mais de cinquenta anos moralmente superiores. Tal como não se desmerece agora a III República que leva 35 anos de acção libertadora da tenebrosa 'longa noite...' Nem tão pouco interessa - tornando ao caso - a esta moderníssima ciência de excelência que o I.S.C.T.E. se meta de fita métrica a medir, no presente - e do presente, não do tempo de Salazar - meros padrões de conforto do catálogo da Worten ou da barraquinha da Abreu montada à porta e conclua pateticamente 73% de felicidade para os portugueses.

 Pois disto, vede: a mim, se me inquirirem depois duma opípara sardinhada quanto, de 1 a 10, me sinto feliz, pode ser que até responda mais de 7,3 - dependerá do tinto.

 E também há-de ser culpa do Salazar.



Proveta e prof. Bunsen (Dos Marretas)

 (Imagem através do Google.)



(Ajeitado às18h10 para melhor clareza.).

Sem comentários:

Enviar um comentário