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sábado, 23 de maio de 2009

Da série "Carniceiros de Arquitectura"

 Nos primórdios das Avenidas Novas achava-se que os prédios de rendimento as desvirtuavam. Rasgadas em quarteirões como boulevards mandaria o bom gosto que se delas arredasse o mal amado prédio de rendimento. Lisboa havia de respirar o luxo e o requinte duma cidade civilizada. A instituição do prémio Valmor foi para isso, embora a edificação dos lotes tenha acabado por reflectir essencialmente a condição económica e estética dos proprietários. Na verdade ainda é hoje isso que se passa: são sobre todas as coisas os limites - e que limites - económicos e estéticos dos actuais proprietários dos prédios que ditam as avenidas que estamos tendo. Se em tempo se não evitou que o desgraçado prédio de rendimento se edificasse nas avenidas, menos mal que ainda assim muitíssimos exemplares edificados assimilaram a estética pretendida: cinco andares rematados com piso de mansarda, com mais ou menos elementos decorativos de requinte nas fachadas e interiores.

 E no que deu?!... 

 Visto daqui nada ilustra mais a fantasmagoria de Lisboa que o fado do prédio de rendimento; sobranceiramente desprezado no final de oitocentos pelo gosto do luxo ecléctico das moradias unifamiliares com cercados de jardim e fachadas de postal ilustrado que se impunham a uma cidade civilizada, acaba aviltado na pior ruína pelo canibalismo imobiliário e arquitectónico que campeia infrene. O prédio de rendimento significa vizinhos e uma cidade começa por ser a gente que nela mora; mas uma cidade que se traga assim à dentada e cospe habitantes como caroços só pode dar em assombração. Ora vede lá se não é no que Lisboa deu?!...



Av. da República, 67, Lisboa (N.B.R. da Silveira, 1970)

Av. da República, 67. Prédio para demolir, Lisboa, 1970.

Adaptado de Nuno Barros Roque da Silveira, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

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