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quarta-feira, 27 de maio de 2009

Conselheiro de Estado

[Conselho do Infante D. Henrique] (*)



« [...] Por começo deste conselho é de saber que as fins (1) desta vida som postas em salvar alma; em honra da pessoa, nome, linhagem, naçom; e em alegrar o corpo; e a derradeira em haver gança temporal (2).
  A primeira de salvar alma é pera fim finda porque é conjunta a Deus que é infindo e portanto se diz dos que em ela som em memória eternal som os justos, e é melhor fim que todas, e maior.
  A segunda é de honra da pessoa, nome, linhagem, naçom, e porquanto esta fim é de herança que fica de linhagem em linhagem, é fundada no ser do mundo e porque se espera ele muito durar; portanto esta fim é muito prezada por ser por seu nome, por sua linhagem e por sua naçom. E dizia Nosso Senhor Deus destes, se honrardes o padre e madre vivereis longamente sobre a terra. Honra [ao] padre e madre direitamente falando é quando o homem faz tais obras e feitos per que, se padre e linhagem e naçom som honrados, viverão longamente sobre a terra porque o seu nome fica atés à fim da terra.
  A 3ª de se alegrar é muito pequena fim porque a cada dia se perde, ca (3) certo é que comer, beber, dormir, cantar, rir, ver, ouvir, companhia de mulheres, casar, motejar, falar e assi todas outras cousas trazem cansaço e perdimento dela; e a velhice e dor bem lhas gastam e a morte acaba; e dizia Nosso Senhor Deus por esta que é assi como o lírio, que a sua frol é fermosa mais [i.e. mas] que logo desfalece; porém diz o apóstolo que a tenhamos assi [a alegria] como se a nom tivéssemos, que assi usemos dela.
  A iiij. [IV ou 4ª] que é de ganço temporal, esto nom se deve chamar fim [...] E os que querem delo [disso] fazer fim, dizia Nosso Senhor por eles que mais impossível cousa seria de irem ao paraíso que o camelo caber pelo fundo d' hũa agulha, e o cuidado do ganço logo deve ser conjunto a outra fim. E se a fim é boa, bom é o ganço; e se bem é, havido é; e se má fim requerem, mau é o ganço, empero (4) que bem havido seja, scilicet (5): hũ homem pediu hũa esmola para ajuntar dinheiro pera empeçar a seu imigo (6); por má ser a fim, todo a ela conjunto pera o ajudar a comprir sem justiça é mau e assi nom deve ser avido por fim [i.e. por objectivo] [...] » (7)
 


 Infante Dom Henrique
Infante D. Henrique, duque de Vizeu
C. Legrand, Lisboa, 1841
Litografia, 28cm x 21cm, B.N.L..


Notas:
(*) Em Estremoz, era de 1436 anos.
(1) Fim era vocábulo do género feminino no séc. XV, tal como se mantém nos idiomas Castelhano ou Francês; o mesmo fenómeno sucede com mar.
(2) Ganço, ganho, lucro terreno.
(3) Porque.
(4) Enquanto.
(5) A saber.
(6) Inimigo.
(7) Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte (edição diplomática), Estampa, Lisboa, 1982, pp. 116, 117. A pontuação e ortografia foram actualizadas excepto nos casos de pronúncia antiga.


6 comentários:

  1. Sem comentários...

    :)))

    (embora o riso deva ser...amarelo....)

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  2. Não venho comentar este seu post, mas sim pedir-lhe o mail que já tive, mas perdi.
    Queria muito que me ajudasse a identificar 2 prédios em Lisboa.
    Obrigada!

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  3. Ora aqui tem: biclaranja[a]sapo.pt . Faça então favor de dizer!...
    Cumpts. :)

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