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sábado, 21 de março de 2009

Casa Empis


 1907, 5.º Prémio Valmor. Demolido em 1954. Avenida Duque de Loulé, 77. Autor: António Couto [de Abreu]. Proprietário: Ernesto Empis (1).

Casa Empis, Av. duque de Loulé, Lisboa (P. Guedes, c. 1907) Av. Duque de Loulé, 77 e varino vendedor de peixe, Lisboa, [1907-1954].
Paulo Guedes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.



 É esta a única imagem que conheço da casa Empis. Em Marina Tavares Dias (2) vem publicada em postal, cortado na base, com uma legenda impressa no canto superior esquerdo: LISBOA — Avenida Duque de Loulé, e varino vendedor de peixe. Portugal. Parece fotografia encenada (ou talvez não). A fotografia é fácil de encontrar na Internete mas pouco se diz da casa.
 A casa Empis ficava na esquina da Luciano Cordeiro e tinha o n.º 77. Ora hoje o n.º de polícia nessa esquina é o 73; o 77 fica na esquina abaixo, que dá para a Rua da Sociedade Farmacêutica. A propriedade da casa Empis creio que abarcava todo quarteirão entre as ditas duas ruas. Depreendo isso da imagem e dos dos índices dos processos de obras listados nas páginas do Arquivo Municipal. Se assim foi (posso estar enganado) a demolição da casa Empis ditou inevitavelmente o loteamento da propriedade, como parecem indicar os actuais números de polícia naquele quarteirão da Duque de Loulé.
 A casa foi mandada construir por Ernesto Augusto Empis (1883-1968), natural da freguesia de São José em Lisboa, ou pelo seu pai Ernesto Lourenço Empis (1842-1913) (3). Do que descubro no GeneAll.net casou Ernesto Augusto em 1912 na freguesia do Coração de Jesus com D.ª Laura Figueira (1888-1975). Habitariam a casa nessa época (Ernesto Augusto provavelmente desde 1907) já que a sua filha mais velha, Maria Cristina Empis, ali nasceu em 1915. Desconheço quando deixou a casa de ser habitada. — O dr. Salazar, que foi vizinho no fim dos anos 20 quando morou na Rua Bernardo Lima, um quarteirão acima, há-de ter conhecido a casa. Quem sabe se conheceu a família?
 Por via daquela menina Maria Cristina, desprende-se um pedaço curioso da história da família Empis e chega-nos pela pena dum catecando seu, Fernando Patronilo d' Araújo, de Lousa, que nos conta o seguinte:


« Durante a frequência da instrução primária, andei na catequese que funcionava junto à igreja de Lousa [...] Na altura, a minha catequista era a D. Cristina Empis que morava, principalmente no Verão, no Casal do Fetalinho, perto da nossa casa. Os Empis, julgo que de origem judaica, mas que tinham há muito optado pelo catolicismo, eram pessoas extraordinariamente simples, embora de um elevado estatuto social — o Senhor Ernesto Empis era accionista e administrador do então Banco Burnay, entre outros lugares que ocupava; a D. Cristina Empis, sua filha, que viria a casar com um diplomata, ensinou-me a doutrina católica até eu ser crismado. Em casa dela, todos gostavam muito de mim, incluindo as criadas e eu, claro, deles! A D. Cristina e a sua irmã a D. Isabel Empis (ainda viva) tentaram que eu seguisse os estudos num seminário. Para esse efeito, um dia foi lá, a casa dos Empis em Lousa, almoçar um alto dignitário da igreja para avaliar, segundo penso, a minha motivação e vocação. Após o almoço esse dignitário esteve a conversar comigo e, de repente, perguntou-me: “Porque é que queres ir para padre?” Respondi: “Para não ter muitos filhos, que custam muito a criar!” Pronto, o problema ficou logo resolvido, nunca mais me falaram em ser padre!... »


Fernando Patronilo d' Araújo Website (Adolescência).


 Em breves instantes na Internete eis o que me foi fácil descobrir sobre a casa Empis da Duque de Loulé que, salvo aquela fotografia bastante conhecida, tão mal documentada parece andar.
 A casa Empis deu lugar ao Hotel Embaixador, modernamente apodado Comfort Inn...
 




(1) Lisboa Desaparecida, vol. 5, 2.ª ed., Quimera, 1996, p. 147.
(2) Idem.
(3) Segundo a Enciclopédia Livre foi mandada fazer por este último, Ernesto Lourenço.
(Texto revisto às 5h30 da tarde.)


13 comentários:

  1. Parabéns BIC LARANJA!
    Assim dá gosto ler um blogue!
    E fica a história registada para o futuro conhecer o passado.
    Bem haja!

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  2. Obrigado! Parabéns pelo seu blogo também.
    Cumpts.

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  3. e qual a justificação para a demolirem?

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  4. A minha conjectura é que se demoliu para levantar um hotel de 8 andares. Quem mandou fazê-lo saberá se é esta a resposta.
    Cumpts.

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  5. Attenti al Gatti24/3/09 00:00

    Bic Laranja escrita fina, sem dúvida. Mais um excelente trabalho. Parabéns.
    O tema trouxe-me vagamente à memória um Empis ligado à tauromaquia. Talvez cavaleiro, já não me lembro.
    A.v.o.

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  6. Sócios do Clube Tauromáquico, segundo vem no GeneAll.net.
    Cumpts.

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  7. Os vintes anos que decorreram entre 1965 e 1985 foram um crime continuado contra Lisboa, em especial, a horrorosa década de 1970.

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  8. Concordo que da década de 60 para cá muito se tem perdido.
    Cumpts.

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  9. Deixe lá que na década de 40 e 50 também… Muito à custa de Duarte Pacheco (e afins)!

    Abraço

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  10. Foi um furacão, sim, mas havia planos. E havia muito menos herança para arrasar. Cumpts.

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  11. Francisco Empis20/4/11 18:10

    É o Francisco Empis, meu primo afastado, e homónimo, e é forcado em Santarém, ou era...

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  12. Francisco Empis20/4/11 18:14

    Gostei do artigo. Ainda existem fotografias de alguns interiores e dos jardins da casa, se bem que poucas, pelo menos aqui em casa... Provavelmente outros descentes de Ernest Laurent detêm mais. Acho curioso o facto de nos apontar como descendentes de judeus... Nunca ouvi tal coisa, mas também não o negarei sem provas. A não ser que seja por casamentos com os Burnay, esses sim d'origem judaica.
    Cumprimentos.

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  13. Obrigado pelo seu comentário. Desculpe não lhe ter agradecido mais cedo.
    Cumpts.

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