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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Os inquilinos do 4º morreram, as portas foram escancaradas...

 Crónica de Lisboa à roda dum prédio sem remédio. Há um ano e picos, esquecido já, na Cidadania LX. Lisboa está perdida. Ergue-se a cultura do vazio.



« Morei durante anos no nº 42 da Av. Duque de Loulé. O meu quarto era no 3º andar. Precisamente aquele que tem a porta aberta para a varanda. Era um prédio magnífico. Apenas o 1º andar tinha um cabeleireiro e uma habitação. Os ou-

tros apenas 1 habitação por andar. 10 assoalhadas, apenas 1 tinha janela para o saguão. Todas as outras eram viradas para as 3 ruas. 39 portas e janelas, 35 m de corredor. Nos anos 80 começou o êxodo dos lisboetas para as periferias. O presidente da Câmara autorizou a venda para escritórios de todos os prédios de habitação. Destruíram-se edifícios de grande valor arquitectónico para construirem o que hoje se vê. Das Avenidas Novas sairam milhares de pessoas. Na Duque de Loulé desapareceram os vizinhos, fecharam as lojas de bairro, os cafés mudavam para lojas de comida à pres-

sa e em pé. Deixou de passar o ardina que atirava o jornal dobrado para a varanda. Desapareceram as senhoras que ven-

diam fruta todo o dia em frente da mercearia da espanhola que passou a ser uma casa de comida rápida. Os passeios pas

saram a estar ocupados por carros todo o dia e vazios à noite. "O Noite e Dia" passou a ser uma outra coisa que só ser-

via a noite. Destruíram-se vivendas, abandonaram-se outras. Abriram-se portas. foi assim no nº 42. Os inquilinos do 4º andar morreram, as portas foram escancaradas e quando chovia, no 3º andar quase tinhamos que andar de gabardina e chapéu.

  O coreto da José Fontana passou a ser armazém de garrafas vazias, abrigo de quem não tinha casa. A António Arroio mudou-se para as Olaias. O Camões esteve quase abandonado. A Escola de Medicina Veterinária mudou-se. O Monu-

mental foi arrasado. Ainda recordo a Laura Alves em frente dos destroços a gritar já louca. Fechou o Monte Carlo, o Mo

numental, a Paulitana (acho que era este o nome)... E desde os anos 80 ainda ninguém parou com a destruição de Lisboa.

   [...] Criminosos!»


Comentário de V.M. em 11/12/07 às 4h10 da tarde. Imagem: Ciddania LX.

15 comentários:

  1. E por aí já não sei em que número, num prédio de esquina, com uma rua que também não recordo, mas que do outros lado tinha uma tasca a atirar para restaurante chamado Cacho Dourado.
    Num prédio que pertencia à Hidro Eléctrica do Alto Alentejo trabalhei eu até ir para a tropa em 1967,
    quando voltei de Moçambique em 1970 já tinha ido abaixo e a HEAA noutras paragens

    Andámos pela mesmas ruas é o que digo

    Um abraço

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  2. Ainda bem que existem fotos e os filmes como costa do castelo embora tenha sido realizado em grande parte em estúdio , para as próximas gerações , não esquecerem que existiu uma cultura e um modo de vida português
    Em Paris Londres Viana, tudo é conservado a população tem orgulho nos seus valores, nos desde há muito, somos dirigidos por anti-portugueses , era preciso uma enciclopédia para denunciar isto tudo é quase um crime, quando se vem da A8 para Lisboa e se vê Loures com Q. do Infantado, aonde é que esta o humanismo ?
    Tenho um amigo que lá vivia, num grande apartamento com garagem, um dia chegou a conclusão que passava quase 3h ou mais por dia em transporte, escola para os filhos trabalho etc. , comprou um apartamento num prédio antigo totalmente restaurado, resultado os filhos vão a pé para a escola ele muitas vezes tb , esta mais calmo, ainda por cima se precisar de o vender nunca perde valor.

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  3. Um hotel de charme no mosteiro. Pior só se o demolirem. Cumpts.

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  4. Ze Lisboeta19/12/08 19:32

    O pior de tudo é que o triste estado de coisas relatado foi, em grande parte, produzido «automaticamente», pela manutenção da lei do inquilinato.

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  5. Não se engane. Há mais leis.
    Cumpts.

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  6. Atentti al gatti19/12/08 20:46

    Este é um texto pungente que causa um aperto no peito, misturado com um sentimento de impotência. E ainda faltou falar da padaria de gavêto, exemplar representativo dos tempos de apogeu destes estabelecimentos.
    Percebe-se porque somos um país de emigrantes. Até a mim me apetece emigrar. Para esquecer o que não posso evitar.
    A.v.o.

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  7. olá bicc, gosto das tuas noticias sempre em cima do acontecimento, continua assim que precisamos de estar actualizados

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  8. Há três coisas que me partem mesmo o coração: Ver tantas casas esvaziadas de alma; ver tantos restos de vidas vendidos em leilão ou na Feira; constatar a inesgotável estupidez e ingratidão do povo!
    Mas que fazer? É o que temos… :-(

    Abraço

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  9. Zé Lisboeta21/12/08 02:37

    Creio ser a principal razão, desde logo por não haver qualquer outro país europeu - nem os que sofreram bombardeamentos - com as cidades em tal estado de ruína. E em toda a Europa não há legislação equiparável - nem de longe! - ao que sucedeu e sucede aqui: um congelamento ou constrição de rendas habitacionais e comerciais com quase com 90 anos!

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  10. É triste que tudo tenha que dar nisto. Cumpts.

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  11. É falta noção do valor das coisas. Que espelha educação grosseira. Enfim!...
    Cumpts.

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  12. É verdade... E simultaneamente muita falta de humildade e consciência de si mesmo. Por isso é que tanta gente entra em parafuso quando tem de pensar mais um bocadinho na sua vida. Se houvesse mais ginástica de massa cinzenta…

    Abraço

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  13. Nada a fazer. Parece falha estrutural.
    Feliz Natal!

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