Não posso nem quero andar para diante sem te dar duas brevíssimas notícias retrospectivas, sabidas «por tôda a gente que sabe», o que não quere dizer que - como tantas que darei - elas estejam na tua memória e eu esteja no meu direito de as omitir.
Neste troço da Rua de Santa Justa, entre as Ruas dos Correeiros (vulgo Travessa da Palha) e a Rua da Prata, passava antes de 1755 em terminus a formosa Rua das Arcas, o Largo da Palha, do qual nascia a Rua da Palha que ia desembocar na Rua da Betesga, velha. A Rua dos Correeiros, que foi destinada aos ofícios dos seleiros - ainda hoje [1939] subsistentes - e que se chamou também Correaria Nova, e Nova dos Correeiros, deve a sua designação oral, sobrevivente, à vizinhança com o Largo e Praça da Palha.
Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, livro XII, 2ª ed., Vega, 1991, p.42.
Colocação de tapumes na Praça da Figueira; ao fundo a Rua dos Correeiros, Lisboa, 1949.
J. C. Alvarez, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Antes de 1755 a Rua da Palha desembocava naquela esquina que vedes ao fundo (cruzamento da Rua da Betesga com a dos Correeiros). Nasceria essa Rua da Palha por alturas do nº 43 da Rua de Santa Justa, entre as actuais Rua dos Correeiros e Rua da Prata. Seriam por aí o Largo e a Travessa da Palha.
O fado Foi na Travessa da Palha, de 1958, cantado originalmente pela Lucília do Carmo (letra de Gabriel de Oliveira, música de Frederico de Brito), diz-me que a memória oral se mantinha nesse tempo. Mas a voragem destas coisas, dos anos 60 para cá tem sido grande. Não sei se a velha designação oral da Rua dos Correeiros perdura além do fado, mas afoito-me a pensar que não. Eu não a conhecia (mas todavia que sei eu...).
O fado menciona a taberna dum certo Friagem, que as Páginas Amarelas dão como Adega Restaurante, precisamente na Rua dos Correeiros, ou, como já vimos, na Travessa da Palha. Nunca lá comi.
Tudo isto a propósito dum comentário que o leitor italiano Roberto simpaticamente me deixou na Abertura da Rua Nova da Palma.
Rua dos Correeiros, Lisboa, início do séc. XX.
Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Adenda (13h37): só agora me dou conta - ampliando a fotografia - que os dizeres naquela tabuleta pendurada mais adiante na rua, do lado direito, dizem quase de certeza Adega Friagem. Sendo que estamos à porta do nº 151 e voltados para a Praça da Figueira, a tabuleta coincide com a morada das Páginas Amarelas: o nº 170. É extraordinário!
óptimo trabalho companheiro!
ResponderEliminarEu posso somente adicionar outra referência literária:
Agora, sai, urbanamente deu as bòas-tardes, e agradecendo saiu pela porta da Rua dos Correeiros, esta que dá para a grande babilónia de ferro e vidro que é a Praça da Figueira, ainda agitada, porém nada que se possa comparar com as horas da manhã, ruidosas de gritos e pregões até ao paroxismo.
Respira-se uma atmosfera composta de mil cheiros intensos, a couve esmeada e murcha, a excrementos de coelho, a penas de galinha escaldadas, a sangue, a pele esfolada.
Andam a lavar as bancadas, as ruas interiores, com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas, ouve-se de vez em quando um arrastar metálico, depois um estrondo, foi uma porta ondulada que se fechou. Ricardo Reis rodeou a praça pelo sul...
(José Saramago, "O Ano da Morte de Ricardo Reis")
Um saludo
Roberto
peresio@hotmail.com
Extraordinário, extraordinário, foi este trabalho de pesquisa. A localização da Adega Friagem foi a cereja no topo do bolo. Se calhar um bom sítio para comemorar a saída do seu livro sobre Lisboa, não?
ResponderEliminarA.v.o.
Obrigado!
ResponderEliminarA viva descrição da praça é um bom epitáfio para a fotografia de cima. Os tapumes que se lhe vê pôr são a antecâmara da demolição.
Cumpts.
Obrigado! Mas foi um golpe de sorte com a fotografia de Benoliel; o resto foi labor modesto, acredite.
ResponderEliminarCumpts.
Providencial este seu post(al). Andava à procura de informações sobre a Tr. da Palha de que fala o fado e aqui as encontrei com imagem e tudo. Bem haja! Gostaria de fazer simplesmente um reparo - o fado é anterior à Lucília do Carmo, era do repertório da Maria Alice e tinha o título "Cena Fadista"; como a memória é curta e a cultura fadista escassa, este e outros fados passam por ter sido criados por quem só os interpretou posteriormente. Se calhar, isto não lhe interessa nada...Desculpe e obrigada. Se quiser, terei todo o gosto que me visite no Fadocravo; brevemente vou falar acerca deste fado.
ResponderEliminarA memória é curta, tem razão. E a minha cultura fadista é escassíssima. Colhi a informação do fado na Wikipédia e penitencio-me por isso.
ResponderEliminarVale-nos o seu oportuno esclarecimento. Fico freguês do Fadocravo.
Cumpts.
Obrigada pela resposta. Quando eu postar o "Foi na Tr. da Palha", aviso, mesmo porque utilizei esta sua (do Benoliel) foto no vídeo.
ResponderEliminarFico então a contar consigo como freguês do meu sítio de Fado; aqui o Bic Laranja já está nos meus Favoritos, estou freguesa...
Saudações fadistas
OP
P.S.- Isto de escrever com Bic Laranja, é outra loiça!...
O que mais entristece mais no caso da demolição da Praça da Figueira é a inutilidade do que lá ficou! Haverá Praça mais insípida que a actual?!
ResponderEliminarLembrar que, nos anos 40, foram apregoados os inúmeros benefícios da demolição e caladas - à força bruta - todas as vozes discordantes!...
Abraço
Pois! Bem vê...
ResponderEliminarObrigado!
Hoje são mais polidos, é verdade. Não mandam calar. Ignoram e fazem ainda mais torto.
ResponderEliminarCumpts.
Boa! É isso mesmo!
ResponderEliminarPostei hoje o fado da "Travessa da Palha".
Cumprimentos
OP
"Deram as oito da manhã e calculei que a essa hora a policia, sabendo da minha fuga, já andasse pressurosa no encalço do evadido. Na Praça comprei um molho de hortaliça e tratei de occultar o rosto o mais possivel. Fui a casa do Alfredo Costa, á rua dos Retrozeiros. Dormia ainda. Fui a outra casa. A pessoa que a habitava aconselhou-me o esconderijo n'outro ponto. Não acceitei o conselho e encafuei-me na taberna do João do Grão, na travessa da Palha."
ResponderEliminarAquilino Ribeiro
A Revolução Portugueza - O 5 DE OUTUBRO
JORGE D'ABREU, 1912
CAPITULO II — Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca.
Bem apanhada. Pena a polícia o não ter apanhado a ele...
ResponderEliminarMas, desse modo não estávamos aqui.
Cumpts.