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sábado, 1 de novembro de 2008

Travessa da Palha (Rua dos Correeiros)

 Não posso nem quero andar para diante sem te dar duas brevíssimas notícias retrospectivas, sabidas «por tôda a gente que sabe», o que não quere dizer que - como tantas que darei - elas estejam na tua memória e eu esteja no meu direito de as omitir.



 Neste troço da Rua de Santa Justa, entre as Ruas dos Correeiros (vulgo Travessa da Palha) e a Rua da Prata, passava antes de 1755 em terminus a formosa Rua das Arcas, o Largo da Palha, do qual nascia a Rua da Palha que ia desembocar na Rua da Betesga, velha. A Rua dos Correeiros, que foi destinada aos ofícios dos seleiros - ainda hoje [1939] subsistentes - e que se chamou também Correaria Nova, e Nova dos Correeiros, deve a sua designação oral, sobrevivente, à vizinhança com o Largo e Praça da Palha.



Norberto de Araújo, Peregrinações em Lisboa, livro XII, 2ª ed., Vega, 1991, p.42.


 


Colocação de tapumes na praça da Figueira, Lisboa (J. C. Alvarez, 1949)
Colocação de tapumes na Praça da Figueira; ao fundo a Rua dos Correeiros, Lisboa, 1949.
J. C. Alvarez, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..



 Antes de 1755 a Rua da Palha desembocava naquela esquina que vedes ao fundo (cruzamento da Rua da Betesga com a dos Correeiros). Nasceria essa Rua da Palha por alturas do nº 43 da Rua de Santa Justa, entre as actuais Rua dos Correeiros e Rua da Prata. Seriam por aí o Largo e a Travessa da Palha.
 O fado Foi na Travessa da Palha, de 1958, cantado originalmente pela Lucília do Carmo (letra de Gabriel de Oliveira, música de Frederico de Brito), diz-me que a memória oral se mantinha nesse tempo. Mas a voragem destas coisas, dos anos 60 para cá tem sido grande. Não sei se a velha designação oral da Rua dos Correeiros perdura além do fado, mas afoito-me a pensar que não. Eu não a conhecia (mas todavia que sei eu...).
 O fado menciona a taberna dum certo Friagem, que as Páginas Amarelas dão como Adega Restaurante, precisamente na Rua dos Correeiros, ou, como já vimos, na Travessa da Palha. Nunca lá comi.
 Tudo isto a propósito dum comentário que o leitor italiano Roberto simpaticamente me deixou na Abertura da Rua Nova da Palma.

 Rua dos Correeiros, Lisboa (J. Benoliel, início do séc. XX.)
Rua dos Correeiros, Lisboa, início do séc. XX.
Joshua Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..

Adenda (13h37): só agora me dou conta - ampliando a fotografia - que os dizeres naquela tabuleta pendurada mais adiante na rua, do lado direito, dizem quase de certeza Adega Friagem. Sendo que estamos à porta do nº 151 e voltados para a Praça da Figueira, a tabuleta coincide com a morada das Páginas Amarelas: o nº 170. É extraordinário!

13 comentários:

  1. óptimo trabalho companheiro!

    Eu posso somente adicionar outra referência literária:

    Agora, sai, urbanamente deu as bòas-tardes, e agradecendo saiu pela porta da Rua dos Correeiros, esta que dá para a grande babilónia de ferro e vidro que é a Praça da Figueira, ainda agitada, porém nada que se possa comparar com as horas da manhã, ruidosas de gritos e pregões até ao paroxismo.
    Respira-se uma atmosfera composta de mil cheiros intensos, a couve esmeada e murcha, a excrementos de coelho, a penas de galinha escaldadas, a sangue, a pele esfolada.
    Andam a lavar as bancadas, as ruas interiores, com baldes e agulheta, e ásperos piaçabas, ouve-se de vez em quando um arrastar metálico, depois um estrondo, foi uma porta ondulada que se fechou. Ricardo Reis rodeou a praça pelo sul...

    (José Saramago, "O Ano da Morte de Ricardo Reis")

    Um saludo

    Roberto
    peresio@hotmail.com

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  2. Atentti al gatti2/11/08 02:55

    Extraordinário, extraordinário, foi este trabalho de pesquisa. A localização da Adega Friagem foi a cereja no topo do bolo. Se calhar um bom sítio para comemorar a saída do seu livro sobre Lisboa, não?
    A.v.o.

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  3. Obrigado!
    A viva descrição da praça é um bom epitáfio para a fotografia de cima. Os tapumes que se lhe vê pôr são a antecâmara da demolição.
    Cumpts.

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  4. Obrigado! Mas foi um golpe de sorte com a fotografia de Benoliel; o resto foi labor modesto, acredite.
    Cumpts.

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  5. Providencial este seu post(al). Andava à procura de informações sobre a Tr. da Palha de que fala o fado e aqui as encontrei com imagem e tudo. Bem haja! Gostaria de fazer simplesmente um reparo - o fado é anterior à Lucília do Carmo, era do repertório da Maria Alice e tinha o título "Cena Fadista"; como a memória é curta e a cultura fadista escassa, este e outros fados passam por ter sido criados por quem só os interpretou posteriormente. Se calhar, isto não lhe interessa nada...Desculpe e obrigada. Se quiser, terei todo o gosto que me visite no Fadocravo; brevemente vou falar acerca deste fado.

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  6. A memória é curta, tem razão. E a minha cultura fadista é escassíssima. Colhi a informação do fado na Wikipédia e penitencio-me por isso.
    Vale-nos o seu oportuno esclarecimento. Fico freguês do Fadocravo.
    Cumpts.

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  7. Obrigada pela resposta. Quando eu postar o "Foi na Tr. da Palha", aviso, mesmo porque utilizei esta sua (do Benoliel) foto no vídeo.
    Fico então a contar consigo como freguês do meu sítio de Fado; aqui o Bic Laranja já está nos meus Favoritos, estou freguesa...
    Saudações fadistas
    OP

    P.S.- Isto de escrever com Bic Laranja, é outra loiça!...

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  8. O que mais entristece mais no caso da demolição da Praça da Figueira é a inutilidade do que lá ficou! Haverá Praça mais insípida que a actual?!
    Lembrar que, nos anos 40, foram apregoados os inúmeros benefícios da demolição e caladas - à força bruta - todas as vozes discordantes!...

    Abraço

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  9. Hoje são mais polidos, é verdade. Não mandam calar. Ignoram e fazem ainda mais torto.
    Cumpts.

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  10. Boa! É isso mesmo!
    Postei hoje o fado da "Travessa da Palha".
    Cumprimentos
    OP

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  11. "Deram as oito da manhã e calculei que a essa hora a policia, sabendo da minha fuga, já andasse pressurosa no encalço do evadido. Na Praça comprei um molho de hortaliça e tratei de occultar o rosto o mais possivel. Fui a casa do Alfredo Costa, á rua dos Retrozeiros. Dormia ainda. Fui a outra casa. A pessoa que a habitava aconselhou-me o esconderijo n'outro ponto. Não acceitei o conselho e encafuei-me na taberna do João do Grão, na travessa da Palha."

    Aquilino Ribeiro
    A Revolução Portugueza - O 5 DE OUTUBRO
    JORGE D'ABREU, 1912
    CAPITULO II — Um «accidente de trabalho» e uma evasão romanesca.

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  12. Bem apanhada. Pena a polícia o não ter apanhado a ele...
    Mas, desse modo não estávamos aqui.
    Cumpts.

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