A inércia deve ser a coisa mais pesada.
Há-de ter perto dum mês pouco mais ou menos, deduzo que tenha havido um choque na Av. da República por altura da Miguel Bombarda. É por ali, na tira do passeio separadador da avenida que pesa com toda a sua massa densa a inércia. Num pára-choques destroçado lá caído.
A inércia é a coisa mais pesada e ainda bem. Assim nem o vento moderado a forte ou com rajadas levantará o pára-choques inerte do sítio. Só talvez alguma greve...

Locomotiva descarrilada (greve ferroviária), Portugal, 1919.
Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Adenda em 30/9: há coisas que nem de propósito; hoje ao passar na Av. da República vi que a acção não grevista (alegadamen-
te) dalguém removera o destroço do pára-choques que ontem ainda lá jazia. Não acredito porém que tenha sido por ter cá isto escrito sobre o caso.
Vinda, a carvão incandescente e esforço (des)humano, corria entre linhas paralelas, tossindo fumaça, apitando e resfolgando, com gentes mirando pelas janelas ("Atenção, não se debruçar").
ResponderEliminarUm vagão ajoujado de malotes e cestos de vime com panos atados às asas.
Golpeava o vento entre pinhais e maresias.
Numa curva de suave declive, galgou calhaus desarrumados e torceu-se entre gemidos de geringonça e gritos de susto das almas transidas.
Ficou simplesmente ali.
À espera dos abraços retemperadores, enquanto sangue e linfa escorriam devagarinho, depois do pulo.
As máquinas, é bom que se saiba, também têm coração.
Bonito comentário. Obrigado!
ResponderEliminarSó que nesta aqui foram uns grevistas que lhe provocaram o ataque cardíaco.
Obrigado pelo seu comentário!
Caro "Bic Laranja" (instrumento de escrita que tanto usei com imenso gosto), saiba que não tem nada que agradecer, já que exprimir-me aqui é um privilégio. Creia.
ResponderEliminarPasseio os olhos e as saudades por tantos locais por onde calcorreei a cidade, por outros onde talvez nunca venha a estar e, sobretudo, pelas memórias do passado que reverencio.
Recordo os relatos dos meus pais, as suas vivências, ajustes e nostalgias, que tanto do que publica representa belissimamente.
E depois, é profundamente inspirador. Quem agradece, sou eu.
Bem haja, pois.
A vergonha do costume.
ResponderEliminarInfelizmente, há muitos exemplos semelhantes.
Lisboa está suja, diria conspurcada.
E agora que o tal pedaço de automobilístico metal foi removido, diga-nos: é da linha do Tua a imagem?
ResponderEliminarNunca desconfiar do alcance que este Grande Blogue tenha. A fotografia é incrível, parece transformar a locomotiva num animal exangue.
ResponderEliminarAbraço
Fantásticos os comentários da srª Margarida Pereira!
ResponderEliminarO "Não se debruçar" era, "ipsis verbis", o que constava de uma placa afixada junto às janelas das carruagens. Retrato de um tempo ido em que "as máquinas também tinham coração".
"Atentti al Gatti" atento a tudo! :)
ResponderEliminarÉ verdade, pois tenho duas dessas placas, em metal cravado a negro-velho, apostas em janelas da casa com umas dezenas de anos que adquiri há pouco (gosto mesmo de coisas antigas...).
Sucede que um dos pretéritos habitantes trabalhava na então CP e ali as colocou por graça, que subscrevo.
Lá do segundo andar (é antiga e enorme), debruço-me para as árvores e os aviões na linha do horizonte e sorrio sempre à menção cautelar.
As janelas são de madeira original, escura e bem envernizada e aquilo tudo é museológico, encantador. Meu.
A felicidade são detalhes.
Como estar aqui, a trocar impressões com vocês.
:)
:) Igualmente!
ResponderEliminarEncardida. Cumpts.
ResponderEliminarTem-me em demasiada conta. Obrigado!
ResponderEliminarA fotografia é como diz; só lamento o céu queimado.
Cumpts.
Amiúde vale mais o blogo pelos comentários. E aprennde-se: não sabia eu desse letreiro, veja lá!...
ResponderEliminarCumpts.
Autênticos Porto "Vintage" os comentários de Margarida Pereira.
ResponderEliminarTambém eu gostaría de ter placas dessas nas minhas janelas e que se justificariam face à altura a que as mesmas estão. Não sei é se ficariam bem em janelas de PVC. Tal como gostaria de ter uma das antigas lanternas de sinalização das agulhas que, por honestidade a mais ou coragem a menos, não surripiei de um monte delas que estava em Stª Apolónia à espera de um triste fim.
Que me lembre, esta é a terceira foto sobre este tema aquí publicada e que, curiosamente, coincide com o anúncio de próximas greves.
Ruborizo com semelhante encómio... :)
ResponderEliminarAinda por cima porque sou do e estou no Porto! Bingo!
...
Ponto importante do seu comentário - o furto amoroso.
Advogo que, em semelhante situação, deveria ter sacudido os pruridos e lançado mão das lanterninhas!
Seria um acto de salvação, um verdadeiro gesto de amor.
Algo nunca condenável.
Agora estariam, polidas e contentes, a reinar num lar flutuante acima do pó da cidade, reflectindo no PVC o suave luzeiro com que acalentaram esperanças de mil passageiros do tempo.
Para a próxima, não hesite!
Deus perdoa e o juízo dos homens, aqui, não interessa nada...
Desculpe por tardar em responder-lhe.
ResponderEliminarÉ difícil ser no Tua. Só as novas tecnologias que lá andam descarrilam. De lovcomotivas não há notícia. Cumpts.
Face ao rubor, direi antes Porto Ruby Vintage.
ResponderEliminarCumpr.