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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Mais pesado que uma locomotiva

 A inércia deve ser a coisa mais pesada.
 Há-de ter perto dum mês pouco mais ou menos, deduzo que tenha havido um choque na Av. da República por altura da Miguel Bombarda. É por ali, na tira do passeio separadador da avenida que pesa com toda a sua massa densa a inércia. Num pára-choques destroçado lá caído.
 A inércia é a coisa mais pesada e ainda bem. Assim nem o vento moderado a forte ou com rajadas levantará o pára-choques inerte do sítio. Só talvez alguma greve...


Locomotiva descarrilada (greve ferroviária), Portugal, 1919.
Arquivo Fotográfico da C.M.L..




Adenda em 30/9: há coisas que nem de propósito; hoje ao passar na Av. da República vi que a acção não grevista (alegadamen-
te) dalguém removera o destroço do pára-choques que ontem ainda lá jazia. Não acredito porém que tenha sido por ter cá isto escrito sobre o caso.

16 comentários:

  1. Margarida Pereira30/9/08 18:27

    Vinda, a carvão incandescente e esforço (des)humano, corria entre linhas paralelas, tossindo fumaça, apitando e resfolgando, com gentes mirando pelas janelas ("Atenção, não se debruçar").
    Um vagão ajoujado de malotes e cestos de vime com panos atados às asas.
    Golpeava o vento entre pinhais e maresias.
    Numa curva de suave declive, galgou calhaus desarrumados e torceu-se entre gemidos de geringonça e gritos de susto das almas transidas.
    Ficou simplesmente ali.
    À espera dos abraços retemperadores, enquanto sangue e linfa escorriam devagarinho, depois do pulo.
    As máquinas, é bom que se saiba, também têm coração.

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  2. Bic Laranja30/9/08 19:57

    Bonito comentário. Obrigado!
    Só que nesta aqui foram uns grevistas que lhe provocaram o ataque cardíaco.
    Obrigado pelo seu comentário!

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  3. Margarida Pereira30/9/08 20:08

    Caro "Bic Laranja" (instrumento de escrita que tanto usei com imenso gosto), saiba que não tem nada que agradecer, já que exprimir-me aqui é um privilégio. Creia.
    Passeio os olhos e as saudades por tantos locais por onde calcorreei a cidade, por outros onde talvez nunca venha a estar e, sobretudo, pelas memórias do passado que reverencio.
    Recordo os relatos dos meus pais, as suas vivências, ajustes e nostalgias, que tanto do que publica representa belissimamente.
    E depois, é profundamente inspirador. Quem agradece, sou eu.
    Bem haja, pois.

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  4. A vergonha do costume.
    Infelizmente, há muitos exemplos semelhantes.
    Lisboa está suja, diria conspurcada.

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  5. E agora que o tal pedaço de automobilístico metal foi removido, diga-nos: é da linha do Tua a imagem?

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  6. Nunca desconfiar do alcance que este Grande Blogue tenha. A fotografia é incrível, parece transformar a locomotiva num animal exangue.
    Abraço

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  7. Atentti al gatti1/10/08 00:32

    Fantásticos os comentários da srª Margarida Pereira!
    O "Não se debruçar" era, "ipsis verbis", o que constava de uma placa afixada junto às janelas das carruagens. Retrato de um tempo ido em que "as máquinas também tinham coração".

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  8. Margarida Pereira1/10/08 09:36

    "Atentti al Gatti" atento a tudo! :)
    É verdade, pois tenho duas dessas placas, em metal cravado a negro-velho, apostas em janelas da casa com umas dezenas de anos que adquiri há pouco (gosto mesmo de coisas antigas...).
    Sucede que um dos pretéritos habitantes trabalhava na então CP e ali as colocou por graça, que subscrevo.
    Lá do segundo andar (é antiga e enorme), debruço-me para as árvores e os aviões na linha do horizonte e sorrio sempre à menção cautelar.
    As janelas são de madeira original, escura e bem envernizada e aquilo tudo é museológico, encantador. Meu.
    A felicidade são detalhes.
    Como estar aqui, a trocar impressões com vocês.
    :)

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  9. Tem-me em demasiada conta. Obrigado!
    A fotografia é como diz; só lamento o céu queimado.
    Cumpts.

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  10. Amiúde vale mais o blogo pelos comentários. E aprennde-se: não sabia eu desse letreiro, veja lá!...
    Cumpts.

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  11. Atentti al gatti2/10/08 01:37

    Autênticos Porto "Vintage" os comentários de Margarida Pereira.
    Também eu gostaría de ter placas dessas nas minhas janelas e que se justificariam face à altura a que as mesmas estão. Não sei é se ficariam bem em janelas de PVC. Tal como gostaria de ter uma das antigas lanternas de sinalização das agulhas que, por honestidade a mais ou coragem a menos, não surripiei de um monte delas que estava em Stª Apolónia à espera de um triste fim.
    Que me lembre, esta é a terceira foto sobre este tema aquí publicada e que, curiosamente, coincide com o anúncio de próximas greves.

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  12. Margarida Pereira2/10/08 10:49

    Ruborizo com semelhante encómio... :)
    Ainda por cima porque sou do e estou no Porto! Bingo!
    ...
    Ponto importante do seu comentário - o furto amoroso.
    Advogo que, em semelhante situação, deveria ter sacudido os pruridos e lançado mão das lanterninhas!
    Seria um acto de salvação, um verdadeiro gesto de amor.
    Algo nunca condenável.
    Agora estariam, polidas e contentes, a reinar num lar flutuante acima do pó da cidade, reflectindo no PVC o suave luzeiro com que acalentaram esperanças de mil passageiros do tempo.
    Para a próxima, não hesite!
    Deus perdoa e o juízo dos homens, aqui, não interessa nada...

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  13. Bic Laranja2/10/08 15:49

    Desculpe por tardar em responder-lhe.
    É difícil ser no Tua. Só as novas tecnologias que lá andam descarrilam. De lovcomotivas não há notícia. Cumpts.

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  14. Atentti al gatti5/10/08 01:30

    Face ao rubor, direi antes Porto Ruby Vintage.
    Cumpr.

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