A Rua Larga ligava ao bairro. Nela podiam cruzar-se dois autocarros, geralmente em boa velocidade. Os motoristas aceleravam e as chapas desconjuntadas das carroçarias de dois andares trepidando com o mau piso da rua faziam tal barulheira que o grosso ronco dos motores se deixava de ouvir. A rua tinha um muro de cada lado. Não era daqueles muros altos das azinhagas que não deixavam ver as quintas a quem passava. Tinham talvez um metro de altura e dum lado e doutro havia as terras das velhas quintas, de que sobejava só um nome mal lembrado e algumas hortas cultivadas pela gente dos bairros. O meu irmão ia sempre por cima do muro. Eu também, mas como era pequenino era a mãe que me punha lá em cima. Ao depois seguíamos: o meu irmão à frente — ele ia sempre à frente — e eu pela mão da mãe, não fosse desequilibrar-me e cair. No fim do muro, a chegar ao outro bairro, havia uns tapumes e depois uma padaria. Houve uma vez que a meio caminho na Rua Larga, indo como costume em cima do muro, pedi um bolo. — Que bolo queres? - quis saber a mãe. — Quero um que é de palha e tem creme lá dentro. A mãe não disse nada. Na padaria pegou-me ao colo para eu ver os bolos na redoma em cima do balcão alto. — Que bolo queres? — tornou-me a dizer. — Aquele — apontei. À saída ensinou-me: — Esse bolo chama-se um pastel de nata e não é de palha, filho; quem come palha são os cavalos.
 Rua Veríssimo Sarmento, Lisboa, 1969. Fotografia de João H. Goulart, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
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Adorei Amigo Bic!!! Bolo de palha..... Lindo!!!
ResponderEliminarCaro Bic Laranja: revejo sempre pedacinhos da minha própria infância nestes seus expressivos quadros. Confundir massa folhada com palha? Mas claro! :-)
ResponderEliminarDois radiosos luares mais rápidos que os autocarros na Rua Larga, mas mais discretos! Grato pelos comentários. :)
ResponderEliminarBela recordação, Meu Caro Bic. Mas quanto ao dizer da Senhora Sua Mãe, cabe comentar que folgo ver ter sido poupada a certos textos que este seu criado teve de digerir... Abraço
ResponderEliminargrande, grande post.
ResponderEliminarou melhor, grande, grande arrepio com esta foto.
aquele enooooooorme abraço!
Que saudades, fazer esta estrada descer a alameda...Acabou quando, 25/26 anos?
ResponderEliminarAbraço
Réprobo: Bom neste caso a única digestão foi o pastel de nata; que não era palha com creme, eh eh. // Pitx e Pedro: Saudades, hem?! Foi por 81 ou 82, sim. Durante algum tempo a rotunda esteve feita mas a rua mantinha-se, atravessando-a pelo meio. // Cumpts.
ResponderEliminarChão sagrado! Nele rompi as sandálias da infância, os Ténis da juventude e os sapatos de adulto.
ResponderEliminarHá horas de sorte! Nem sabia que se chamava "Larga" porque sempre a conhecí como "Rua Nova". Em flash back vejo na parede branca, ao fundo do lado esquerdo, no enfiamento do último poste, um portão de ferro largo e baixo, sempre aberto, onde começava um caminho que ia dar a uma quinta (Olaias?). O trigo chegava ao muro desse lado e, quando ondulava com o vento, fazia um remoínho fantástico, junto ao tal poste. Do mesmo lado, no exremo contrário estão o que penso serem os restos de umas barracas, que arderam numa noite de Natal, tendo morrido gente, o que deu direito a notícia de jornal e a "romaria " no dia seguinte.Do lado contrário, um pouco atrás do autocarro, lá está o troço da Azinhaga ( do Carrascal, seria?) que levava ao "Casal Novo 1888", segundo inscrição sobre o portal,(que jaz sepultado sob aterro da Escola António Arroio) acabando logo a seguir no aterro da R. Ferreira do Amaral. Daí para cima era caminho de pé-posto. Mesmo nestas condições, teve de servir de caminho alternativo ao trânsito de ligeiros, quando a R. Nova, não obstante sê-lo efectivamente, teve um aluimento do piso, deixando a Picheleira sem autocarros e sem o seu melhor acesso. Entre a Azinhga e o tapume à direita, no limite da fotografia, costumava assentar arraiais uma pista de carrinhos de choque. Este tapume serviu de frente a um negócio de ferro-velho, que mais tarde se transferiu para o gavêto da C. Falcão com a F. do Amaral, ocupando as instalações da Pastelaria Chinesa, cuja vida foi efémera, talvez por ser demasiado "chic" para o local em questão. Seguia-se, mais ou menos por esta ordem, a padaria (técnicamente, um depósito) do tal pastel de nata "de palha", uma pequena tasca, uma loja de candeeiros, outra tasca, atípica e maior que a primeira e finalmente o prédio (que vê na outra foto) do "Manelinho", um "menino fino" cujos pais tinham uma capelista na R. Barão de Sabrosa, fente à Calçada da Ladeira. Nesta última tasca começava- se a fritar chicharro ainda antes de o Sol nascer e que era adquirido pelos "homens das obras" a caminho do trabalho e guardado nas "lancheiras", umas robustas malas em madeira e cuja tampa abria lateralmente para poderem servir de assento. O cheiro da fritura era pouco abonatório da qualidade do óleo, experiente conhecedor de várias gerações de peixes. Perante cheiros identicos, era frequente ouvir-se na Picheleira a frase "cheira a fritos do Rodrigues".
ResponderEliminarFico-lhe grato pelo feliz achado e pelas recordações que ele me touxe. Cordiais saudaçõs.
Há horas de sorte pois! Este seu comentário fez ao verbete o mesmo que o vento fazia ao trigo da Quinta das Olaias, de cujo portão só guardo memória por ouvir o meu irmão falar. O casal Novo 1888 já o sabia sepultado lá onde diz. A azinhaga que por ele passava chamava-se precisamente Az. da Picheleira, que no troço a partir da parede branca que lhe dá o flashback ganhou foros de calçada nos alvores do bairro. A Rua Larga seria com a mesma propriedade Rua Nova, dois casos de toponímia popular (a mais natural). É emocionante ouvir velhas novidades e belas descrições destes lugares. Todo o cenário volta a ganhar vida. Muito obrigado pelo seu extraordinário comentário. Cumpts .
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