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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Patranhas e o crescimento do P.I.B.


 Anteontem soube de mais um daqueles estudos... Mais uma rubescente descoberta científica levada a cabo por investigadores (serão cientistas?) afadigados em comprovar exactamente as tolices que postulam (eles ou os que lhes pagam) e não em testar de modo isento hipóteses científicas sérias. O método é de gritos: pondo 43 humanos carregando no botão A ou B consoante um computador lhes mostre um M direito ou um de pernas para o ar concluem que os cérebros funcionam diversamente porque os indivíduos são de esquerda ou de direita. Deduzo que as cobaias tenham sido politicamente rotuladas em ambiente asséptico e com certificação de qualidade ISO 9000.
 Assim de repente que me lembre, há duas coisas para as quais não há limite: para a patranha e para o crescimento do P.I.B. (há quem meta a estupidez nisto mas ela decorre da patranha).
 Para achardes exemplo da primeira, num jornal ao acaso qualquer escrito serve.
 Dantes, para servir "verdades" ditas de ciência certa chegou a haver excursões a Gulags em terras inóspitas, pagas por governos; hoje nós pagamos jornais e televisão por cabo para as tais "verdades" nos chegarem prontas-a-comer em letra de imprensa ou em viva voz radiotelevisiva à hora do jantar. Hoje é melhor que dantes porque com a produção em massa e a economia de mercado, a compra e venda das tais "verdades" dinamiza a economia e faz crescer o P.I.B. (a tal segunda coisa para que não há limite.)
 A possibilidade de crescimento infindo do P.I.B. advém por princípio duma evidência aritmética: a qualquer valor pode-se sempre somar mais umas décimas. É um dogma de felicidade e bem-estar subjacente em todo o discurso moderno. Da conjugação da ciência (saber) e da técnica (trabalho) - conquanto o saber vá melhorando a técnica - a curva ascendente da produção - i.e. do P.I.B. - guiará os humanos como um todo à riqueza ilimitada.
 Grande futuro se adivinha, com a humanidade a ver-se cada vez mais rica. Mais rica e mais atulhada nos dejectos inúteis e descartáveis da superprodução galopante. E os humanos imbecilmente convencidos que produzir lixo é gerar riqueza.
 Posto isto, desafio os tais cientistas mercadores de teses pré-cozinhadas a fritarem-me cérebro no micro-ondas dos M direitos e de pernas para o ar, e dizerem-me se caibo melhor no formato molde dos conservadores ou na forma (esta aqui lê-se fôrma) dos liberais, já que são as únicas que têm para vender e eu estou curioso.


Vendedor de banha da cobra, Alcântara (E.Gageiro, 1957)
Vendedor de "banha da cobra", Lisboa, 1957.
Fotografia: Eduardo Gageiro.

6 comentários:

  1. Lembro-me bem de os ver...

    Bela foto.

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  2. Carlos Portugal14/9/07 01:40

    Texto fabuloso, Caro Bic! Parabéns! Os novos vendedores da banha da cobra, vestidos com batas assépticas de anúncio de detergente, lapiseira no bolso (agora já não usam a velha régua de cálculo, a espreitar do dito bolso, onde o lenço de um marialva deveria estar) e intitulando-se «cientistas», botam o discurso que lhes foi encomendado (ou o emprego, subsídio, bolsa de estudo ou o que seja vai «ao ar») como se fossem sacerdotes de uma nova religião que nos querem impor: a «SCIÊNCIA»! E com dogmas, ainda por cima. Um deles é que «o que fôr dito por um cientista é uma verdade inabalável, porque fundamentado no método científico». Se se vier a descobrir que aquilo é um grande disparate, o «cientista» não se «enganou». Novos «progressos na ciência» é que levaram a um melhor «aprofundamento da questão»... Enfim, sou engenheiro (do I.S.T., não da 'Indy', como o outro); portanto, serei também «cientista» (ou não?). E se disser que a maior parte dessas «teses pré-cozinhadas», dessa «ciência fast-food» são puro disparate, a minha afirmação também será uma verdade inabalável? Ou em que «forma» me quererão meter? Se calhar na de «inadaptado à conformidade do sistema»... E ainda bem. Cumprimentos.

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  3. Disse tudo, Caro Bic. Qualquer que seja o molde em que nos façam caber, com esse método estamos fritos! Um, Dois, Esquerda, Direita! Ab.

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  4. Antigamente havia alfaites em todas as terras, um fato inteiro custava uma fortuna era bem feito claro, mas o povo so comprava um, e durava muitos anos nao havia gordos naquela altura, digamos que o afaite era a cultura, hoje em dia existem so prontos a vestir, a qualidade nao tem nada a ver com a dos alfaites mas, é mais barato quando nao se trata de uma grande marca e a maior parte da populaçao tem accesso, na ciencia sempre foi diferente os vendedores de banha de cobra sempre existiram e cada vez mais, é que o que se chama pronto-a-pensar ninguem sabe nada mas tudo se explica e cada vez ha menos alfaites um pouco como o conhecimento é so pronto-acreditar em tudo!!
    boa continuaçao

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  5. ... mas os "velhos" vendedores da banha da cobra tinham pelo menos a graça do discurso dos pequenos aldrabões. Fascinava-me ouvi-los. Estes do PIB, são de uma raça muito mais perversa.

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  6. Bic Laranja14/9/07 21:19

    José Quintela Soares: Ainda os há. Os verdadeiros. // Carlos Portugal: Excelente imagem. Obrigado! // Réprobo: Exactamente. :) // Anónimo: Excelente metáfora. Bom fim de semana! // Asdrúbal: São piores, sim. São muito mais careiros. // Cumpts. a todos.

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