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sábado, 22 de setembro de 2007

Esquema da desigualdade de géneros

 Esta semana foi noticiado mais um estudo muito à-frente e assaz (sub)urbano. Diz que mais de metade das tarefas domésticas continuam a ser realizadas exclusivamente pelas mulheres, sem ajuda dos maridos ou companheiros. Este termo companheiros é precioso. Se o estudo das 1776 «amostras» se adensou neste detalhe não sei porque não incluíu espécimes dessa vanguarda cultural que são os ditos «casais» gay. Será porque nestes casos houvesse que forçar os parceiros a papéis femininos e masculinos para arribar a conclusões tão poéticas como «a cumplicidade e a conformidade femininas com o esquema da desigualdade de género» [é] um dos principais entraves à mudança do papel dos homens na família? (A divisão sexual do trabalho, incluindo o doméstico é uma barbaridade pré-histórica muito enraizada tanto nos machos como nas fêmeas, já se vê...)
 Mas sendo eu do género masculino tendo a defender a minha dama e fico curioso por saber se a tarefa diligências administrativas atribuída aos homens não poderia ser decomposta diligência a diligência para se democratizar mais a contagem. Outra coisa que também não sei é a porção das tarefas domésticas que são desempenhadas por criadas, empregadas ou, mais modernamente, por colaboradoras. Seria interessante, até para a Assembleia estabelecer quotas masculinas para esses empregos.
 Voltando ao «esquema da desigualdade de género», sabemos que ele é o esquema democrático e livre que sucedeu ao obsoleto esquema da desigualdade de géneros; um jugo ditatorial imposto aos humanos pela Natureza. Onde dantes havia géneros diferentes — masculino e feminino — ditados à nascença, passou a haver a escolha livre e democrática. Eis os géneros (des)iguais oferecidos pelo mercado politicamente correcto na forma dois-em-um: feminino fêmea; feminino macho; masculino fêmea; masculino macho (*). Este novíssimo monolitismo transsexual das sociedades humanas seria perfeito se a Natureza não continuasse a ditar aos machos comportamentos de macho e às fêmeas comportamentos de fêmea, o que é uma barbaridade antidemocrática (além de penalizador para o mercado dos cosméticos...). E o que se dá com outras espécies na Natureza não é exemplo, mesmo que essas espécies tenham rudimentos de organização social. Não. As sociedades humanas são imperativamente democráticas, quer a Natureza queira quer não.
 Nos anos 70 havia um anúncio que dizia que um preto de cabeleira loira ou um branco de carapinha não era natural. Natural era usar o cabelo com que se nasceu. Ora hoje, natural é às avessas do que é natural. Só assim se percebe o mundo em que vivemos.




 




(*) Enumero-os alfabeticamente por ser a ordenação mais democrática que conheço.

14 comentários:

  1. Meu Caro Bic, a maior discriminação de todas: o Génesis distribuiu os trabalhos da seguinte forma: o do suor do rosto para o Masculino, os do parto para o Feminino. Considerando a quebra da natalidade, dá ideia de que muitas Filhas de Eva reivindicam o primeiro para se livrar dos segundos. E para ter razão para chamar os adâmicos descendentes às tarefas domésticas tradicionalmente adstritas à criação da filharada, apesar de não ter sido essa a distribuição divinamente ordenada... Ou seja, um pecado, enquanto a igualdade não se estender ao acto de parir. Abraço

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  2. Bic Laranja22/9/07 15:11

    Muito bem dito! Cumpts.

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  3. Caros amigos, sinto-me vagamente – só vagamente! – provocada pelas vossas considerações. A realidade é que não vislumbro nada de natural – ou, pelo menos, de «natureza» – na afectação ao meu «género» das tarefas domésticas. São áridas, rotineiras e – argumento de um revoltante materialismo, eu sei – exercidas gratuitamente. Pessoalmente, agradeço a essa «imperativa democraticidade» moderna – e a algum feminismo - que me tenha aliviado a culpa de não saber estrelar um ovo. :-D

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  4. Bic Laranja22/9/07 22:41

    Estendi-me, já vejo!... Compreendo a sua gratidão ao espalhafato feminista. Mas do tal espalhafato só se percebe que nunca jamais em tempo algum devem ser as mulheres a estrelar os ovos. Ora isso deixa-me no paradoxo de ser masculino sem ser tido por adamado numa sociedade esquizofrénica. Preso por não saber estrelar um ovo e preso por saber estrelar um ovo. Para o melhor e para o pior há-de ser fome e não a democracia a ditar ao parceiros quem estrela o ovo. Quanto ao que é e não é natural o meu cinismo dirigia-se ao tipo de discurso que subliminarmente li na notícia do estudo. :) Cumpts.

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  5. Eu cá tenho uma bela família onde incluo naturalmente a minha mulher e companheira. Mas, quando lhe dá para me aborrecer, provoco-a com o Alphonse Allais :
    «Oh! l'éternel féminin, comme disait le monsieur dont la femme n'en finissait pas de mourir» ...
    Ao que ela me insulta com uma delicadeza muito feminina. O que é que poderia querer mais ?

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  6. Bic Laranja23/9/07 13:12

    Parece-me uma democracia parlamentar bem humorada. Cumpts. :)

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  7. Querida Luar, vou provocá-La ainda mais lá pelo Inferno. Bjinho e desculpas ao Senhor do Solar pela sem-cerimónia

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  8. Subscrevo o que diz a Luar 2. As tarefas domésticas não são naturais, nem interessantes e não dignificam ninguém. Apesar de eu gostar de cozinhar, mas o combate ao pó, gordura e demais sujidades é uma seca rematada.
    Cumprimentos

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  9. Bic Laranja23/9/07 18:02

    Muito bem! Quer dizer que já temos quem estrele os ovos... :) Cumpts.

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  10. Obrigada, caríssima T, pelo seu apoio. Juntas, nunca seremos demais… ;-)

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  11. Caro Dom Bic eu posso fazer o jantar e os homens limpam e arrumam o resto:) E carregam as compras!
    De nada Luar:) Beijinho

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  12. Bic Laranja23/9/07 20:52

    Se assim lhe parece justo então com certeza Dª T.. Cumpts.

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  13. Bic Laranja29/9/07 08:29

    Obrigado! Cumpts.

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