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sábado, 2 de junho de 2007

Estrato

 Uma perspectiva equivalente hoje à da Rua de Campolide junto ao nº 372 em 1969 pode ser a que vedes à direita.
 A senhora Dona T. pedia um contexto para a imagem de 69: o muro do lado esquerdo isolava ao que julgo o Casal do Sola, onde hoje há um parque de estacionamento em terra batida que serve sazonalmente para um arraial de santos populares; o casario que se avistava ao fundo [no monte para lá] da velha rua em 69 julgo que era o bairro das Furnas; a camioneta podia ser uma Hanomag...
 A estimada leitora Neves de Ontem não reconhece aquela Lisboa de arrabaldes, degradada e feia do fim dos anos 60. Eu reconheço. Era a velha Lisboa de entremuros, das quintas, à espera do (dizem) progresso. Daí a degradação. Se houver algures fotografias dos anos 20, 30 ou 40 daquele troço final da Rua de Campolide, com muita certeza a veremos mais cuidada e aprazível. A imagem de 2007 à direita aparenta uma cidade moderna e organizada (num sábado), mas nestes arranha-céus fruto de especulação imobiliária e de lobbies corporações de hoteleiros sou eu que não reconheço Lisboa. Nem quero, que far-
-me-ia mal. Isto que vedes é uma cidade banal - ou global, globalizada, &c, como alguns gostam. Para verdes que assim é, aí em baixo fica uma segunda imagem: é das traseiras da Av. José Malhoa, num lugar talvez mais certo com o do fotógrafo João Goulart em 69. (Horizontes globais, hem!)

Av. José Malhoa, Lisboa © 2007
 Av. José Malhoa, Lisboa, 2007.

Rua de Campolide, Lisboa © 2007
Rua de Campolide adiante do nº 360, Lisboa, 2007.


Nota final: A Av. José Malhoa e as Torres Gémeas engoliram o velho troço final da Rua de Campolide; o novelo de ruas que hoje tomam o nome da Rua de Campolide, em chegando a Sete Rios, vem desviado antes do nº 360; serpenteia, encaracola-se e enleia-se à esquerda, à direita, em viaduto sobre si mesmo, sempre com o mesmo velho nome. Parece-me uma boa demonstração de quão esquizofrénico tem sido o planeamento da cidade.


Em amarelo a Rua (nova) de Campolide; em azul, onde aprox. jaz a antiga Rua de Campolide.
O ortofotomapa é da Lisboa Interactiva.

6 comentários:

  1. Modernices a servir interesses, sabe-se lá de quem, e a estragar a cidade é o que é...

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  2. Eu sei que sou chata com o referenciar.Mas assim é que aprendo e é verbo que gosto de exercer. Muito obrigada Senhor Dom Bic:)
    E já foi à feira do Livro comprar alguma coisa de interesse?

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  3. Bic Laranja3/6/07 14:45

    Mário: desgostam-me estas construções; particularmente nas avenidas. // Dona T.: O seu pedido é pertinente. Mas o blogo é conforme posso. // Cumpts.

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  4. O blog é conforme pode e pode muito:) Obrigada! :)

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  5. Bic Laranja3/6/07 20:30

    Grato pelo apreço e pela compreensão! Cumpts.

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  6. Sr. Bic Laranja (da escrita fina…:-) ), o seu Blogue revelou-se a janela ideal para espreitar todas as noites. Apaga-se a luz do sol de Lisboa e acende-se a luz mágica do passado no meu computador!
    A coisa mais incrível que descobri ainda ontem no seu arquivo veio ao encontro de uma missão à qual tenho dedicado todos os meus tempos livres (poucos): desvendar os mistérios do meu bairro. Através de si consegui unir todos os pontos e referências soltas, que há meses procurava nos sites de arquivo da Câmara e afins.
    A minha mãe viveu junto ao viaduto ferroviário de Sete Rios, perto da Columbano Bordalo Pinheiro, entre 1937 e 1957. Vinte anos parece pouco, mas o seu mundo foi descoberto a partir do nosso Bairro. Toda a vida a ouvi falar das maravilhosas vivendas da Columbano – todas agora desaparecidas – e das casas da agora Professor Lima Basto (de que tão emocionada – como a minha mãe - falou no seu post a Sra.Verdade). Do Caeiro da Mata e do pai do nosso magnífico Carlos Paredes, cuja casa – diz a minha mãe - ficava onde agora passa o viaduto, ao lado do Colégio. Diz ela que a rua ficava inundada dos acordes de ensaio de pai e filho. A minha mãe lembra-se também duma Praça de Espanha hoje irreconhecível, com vivendas – ou moradias – com lindos jardins, entre as quais viveria uma senhora velhota cujo jardim estava repleto de macacos que a minha mãe todos os dias queria visitar. Lembra também a Rua de Campolide cheia de quintas e árvores, onde mais tarde namorava o meu pai (e que eu imagino de um bucolismo Sintrense).
    Tive a felicidade de – desde há pouco mais de um ano – poder viver na mesma casa onde a minha mãe se encheu de felicidade e quentes lembranças. As ruas – diz ela quando as revisita das suas velhas janelas – já nem parecem da mesma cidade. Só a alma das memórias continua a flutuar por aqui… E é por ela que eu amo o nosso bairro.
    Para além de morar, também trabalho por aqui - na Rua de Campolide - e todos os dias faço um grande percurso a pé (e é assim que se conhecem as cidades). Não há dia que não goste de imaginar a Rua de Campolide como a conheceu a minha mãe. A rua de mil e uma histórias por contar… Vou pela rua fora - cheia de carros, pedras soltas e desmazelo - e vejo uma cidade que mais ninguém vê. Sinto-me feliz por saber “voar” assim, mas triste porque tudo à minha volta é desolação.
    Há muito me interrogava sobre o verdadeiro aspecto e trajecto da Rua de Campolide, a partir da – tristemente decadente – moradia restante: o número 360 (onde passo todos os dias). Entre fotos do Arquivo da Câmara e mapas antigos tudo me parecia uma grande embrulhada. Até que ontem finalmente se fez luz! Ao descobrir os seus textos e exposições de Junho de 2007 vi que afinal tinha a solução aqui tão perto…
    Agora a minha janela para o passado tem finalmente uma vista completa… Os olhos da minha mãe perduram nos meus.
    Perante a minha – a sua! - maravilhosa descoberta, só lhe posso dizer como o surdo diz ao Vasquinho da Anatomia: o cavalheiro é o meu Salvador!
    Obrigada e bem haja, Exmº Sr. Bic (nome genial mas frio para quem tanto aquece o nosso coração). São pessoas assim que – como dizia o reclame - voam para além do óbvio. O óbvio que é por vezes tão feio… Feio como anda a nossa cidade, descaracterizada e com a alma à deriva. Com tantas histórias perdidas para sempre.
    Que outras tantas histórias sejam salvas por nós, que ainda as procuramos!

    Um abraço e muita admiração
    Luciana

    PS - também eu lia as Gémeas, ia a jogos do Sporting com o meu pai e adorava andar nos autocarros verdes de dois andares! :-)

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