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sábado, 9 de junho de 2007

A bola

 Quando era menino ligava alguma coisa à bola. Os jogos eram sobretudo ao domingo e o meu pai não costumava falhar o Sporting no estádio de Alvalade. Certa vez que houve um Sporting-Benfica, ainda jogava o Eusébio, o Sporting perdeu por 5 a 3. Creio que é o mais antigo Sporting-Benfica que me recordo ter tido notícia do resultado. A minha mãe ouviu dizer na rádio e só comentou: –— O pai há-de vir lá pior que estragado.
 Fiquei algo desanimado; mais por o meu pai haver de vir triste que por o Sporting ter perdido. Quando ele chegou corri para ele. — Pai, o Sporting perdeu!...
 — Pois foi filho; mas não faz mal, ganha para a próxima – disse. Como me não mostrou tristeza nem desânimo eu senti-me aliviado.

 Taça de Portugal, Jamor (A.Ferrari, 1974)
 O Sporting ao depois foi campeão nesse ano e veio a jogar a final da Taça de Portugal também com o Benfica. O meu pai, que não era habitual ir à bola sem ser em Alvalade, comprou um bilhete e foi ao Estádio Nacional. Foi de comboio. Eu recorda-me que o jogo ia dar na televisão e que em vez de ir brincar fui ver. É o mais antigo Sporting-Benfica que vi. Estava ansioso porque sabia que o Benfica era forte e podia ganhar, e que isso entristeceria o meu pai. No intervalo o Benfica estava a ganhar 1 a 0, mas na 2.ª parte o Sporting veio com mais força e eu pensei com ingenuidade que o Sporting guardara as forças para 2.ª parte. E foi isso mesmo que fui dizer à minha mãe no fim quando o Sporting ganhou a Taça de Portugal por 2 a 1.
 E ao depois repeti-o contente ao meu pai quando ele chegou.
 Foi no dia 9 10 de Junho de 1974.




Fotografia: Amadeu Ferrari, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

14 comentários:

  1. Sou de uma Familia quase toda ela Sportinguista, eu, obviamente incluido. Esta sua história deixou-me de certa forma sensibilizado, pois relata o medo não no jogo propriamente em si, mas que caso o clube do seu pai não saísse vencedor, isso iria magoa-lo a si porque o seu pai iria estar triste. AH... Já agora... O Sporting-Benfica que o seu Pai presenciou foi no dia 01/08/1973.

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  2. Bic Laranja10/6/07 02:01

    Obrigado pela data do desafio. Poderei fazer uma entrada de diário a partir daqui. Cumpts.

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  3. Salvaguardando a cativante piedade filal que se desprende da postagem, seja permitido a um benfiquista relapso notar que 1974 foi ano, se não de todas, de várias desgraças. Abraço

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  4. Bic Laranja10/6/07 11:28

    As desgraças da bola são sempre empoladas: se não se ganha hoje ganha-se amanhã. Os grandes acidentes nacionais é que não. Cumpts.

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  5. Valdemar Alves10/6/07 16:10

    Boa tarde
    Corrijo a data do primeiro comentário. O jogo dos 5-3 ganho pelo Benfica foi jogado no Domingo, 31 de Março de 1974 e correspondia à 26ª Jornada do Nacional 1973-74. Quando tudo apontava para o Sporting bvencer à vontade, face a irregularida do Benfica até esse jogo, assistiu-se a uma extraordinária exibição do Benfica e de um extrarodinário jogador:Jordão, que anos mais tarde jogou no Sporting. Foi um jogo que contou com a presença do Prof. Marcelo Caetano, bastante aplaudido pela multidão que lotava o Estádio José de Alvalade. Foi "apalpar" a reacção do povo, depois do 16 de Março. 24 dias depois, era deposto. É a vida...
    Cumprimentos e Parabéns pelo blog. Valdemar

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  6. Essa final da taça de que fala ocorreu, se não erro, no dia 10 de Junho de 1974, e não no dia 9.
    Foi o dia em que, pela primeira vez na vida, fui ao Gerês.
    Ao fim da tarde, quando cheguei a casa, descobri que o meu Sporting tinha ganho a taça e que a havia uma grande polémica no país, porque a transmissão de um espectáculo comemorativo do 10 de Junho (que por essa altura deixou de ser o dia de Portugal, trocado pelo dia 25 de Abril, passando apenas a ser o dia de camões e das comunidades portuguesas) havia sido suspensa na RTP, quando se viu um actor qualquer, vestido de cardeal e com uma coroa de cerejas na cabeça, a gozar e imitar o Cardeal Cerejeira.
    Era a censura de regresso - gritou-se!
    E era. O espectáculo em causa era inofensivo e de absoluto mau gosto.
    Ninguém poderia adivinhar então a abjecção em que se haveria de tornar o fenómeno televisivo.

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  7. O meu pai era Belenenses. Estava habituado a ver o clube a perder...Mas não exteriorizava tristeza.
    Só sorria quando ganhavam, assim um sorriso malandro.

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  8. Ando aos anos à espera disto...
    SPORTEIM SPORTEIMMMMMMMMMMMMMM :D

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  9. ...e digo mais, o verdadeiro "lesboeta" é do sporting! O resto é tudo pato bravo! lollllllll
    >:->> ( momento altamente "còltural")

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  10. Valdemar Alves: Grato pela rectificação e pelo interessante comentário; desconhecia os pormenores que me conta. Obrigado! // Funes, el memorioso: agora que fala creio que já tinha visto na televisão uma menção à data da final como sendo 10 de Junho; no verbete segui a data atribuída à fotografia pelo arquvista, mas julgo vossemecê tem razão. // Dona T.: O Belenense é um grande clube. // Scarlata: [grande sorriso] :) // Obrigado e cumpts.

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  11. Só hoje li este seu lindo texto. Quer então dizer que também é do Sporting?!? Pois ficam-lhe muito bem esses sentimentos...(como se dizia antigamente a brincar). Olhe, o meu pai era um sportinguista ferrenho e nem supõe o quanto! Tal como o seu pai, o meu raramente ia assistir a um jogo que não fosse no seu adorado estádio de Alvalade ou no Jamor. A prole completa ia atrás dele a quase todos os jogos que se disputassem em Alvalade. Eu quase sempre às cavalitas porque era muito pequenina e não via nada lá em baixo no chão. Todos nós éramos sportinguistas, claro, todos menos um dos meus irmãos que um belo dia resolveu dizer que era do Belenenses e passou a sê-lo. O meu pai dizia que ele era doutro clube só para o irritar e se calhar até era verdade, porque este meu irmão era um bocado 'amigo da onça', devo dizer. O meu pai ficava literalmente doente quando o seu querido clube perdia o jogo. A 'doença', de que toda a vida padeceu desde estudante em que chegou a jogar futebol paralelamente aos estudos durante anos sempre com a camisola do Sporting, era de tal modo aguda que ele não admitia vestir qualquer tipo de fato ou gravata que não tivesse a cor verde, semi-verde, verde escuro, riscas verdes ou verdes e azuis no caso das gravatas ou, quanto muito e em relação aos fatos, admitia o azul escuro, castanho escuro, cinzento ou preto e só muito eventualmente. A caneta Parker era verde e a tinta Quinck para a encher era igualmente verde. O mata-borrão branco ou azul até que apareceu o verde, nada de cor-de-rosa pràticamente o único que havia na altura, só se não houvesse outro remédio. O emblema que trazia sempre na lapela, muito bonito aliás, era em esmalte verde e branco encastado de esmeraldas muito pequeninas a rodear a figura do leão em ouro, tudo em dimensões reduzidas, discreto e elegante. O papel de carta não era verde porque não havia e bem que o procurou, o tampo da sua sectretária, por exemplo, tinha a parte central em pele verde escura mandada colocar especialmente.
    Uma vez a minha avó, sua sogra, ofereceu-lhe como presente d'anos um alfinete de gravata com rubizinhos (ou granadas, não me recordo bem porque era muito pequenina quando isto aconteceu, mas esta história foi contada durante anos) e um pequeno diamante no centro, portanto era predominantemente uma 'coisa vermelha' que ele ia colocar ao peito! Ai o problema que aquele presente originou e que dôr de cabeça à minha mãe. O meu pai não o podia recusar de modo algum mas também não o queria usar (e era essa a ideia com que a minha avó lho tinha oferecido porque ele tinha perdido um e nessa altura os cavalheiros usavam obrigatòriamente alfinete de gravata - era como o chapéu na cabeça, era impensável um homem sair à rua sem chpéu), recusava-se terminantemente a fazê-lo porque era 'alérgico' àquela cor. E então um dia pediu à minha mãe para ir à joalharia onde a minha avó o havia comprado, para que substituíssem os rubís por esmeraldas... A minha mãe recusou-se a fazê-lo porque dizia que a minha avó iria levar muito a mal essa alteração quando desse de caras com o alfinete. Bem aquilo foi um 'dia de juízo', como soe dizer-se. Melhor, foram dias de juízo. O meu pai nunca colocou o alfinete em toda a sua vida e arranjava sempre uma desculpa qualquer quando a minha avó lhe perguntava se não tinha gostado do presente pois nunca lho via colocado na gravata. Ficou guardado até que foi parar às mãos de um dos meus irmãos que também nunca o usou, não porque - penso eu, mas posso estar enganada sendo ele sportinguista ferrenho como o pai... - tivesse pedras encarnadas mas simplesmente porque os homens deixaram de usar alfinete de gravata. O meu outro irmão do Belenenses, aliviou um pouco a 'febre' com a idade e passou a torcer pelo Sporting com a igual força de todos nós, como não podia deixar de ser. Eu, gostando do meu clube de toda a vida (o nosso pai fazia-nos sócios à medida que íamos nascendo, imagine-se!) não sou facciosa, sou tolerante para com os adeptos doutros clubes. Até do Benfica já há gente na família com os que nela vão entrando em virtude dos cas

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  12. Bic Laranja12/6/07 22:56

    Obrigado pelas suas boas palavras e pela história do seu pai. Obrigado pelos bons sentimentos que me acha. A paixão clubística não me assiste na medida dos pais. Muito menos quando as sociedades anónimas tomam o lugar de clubes; parece-me tudo uma batota. Por isso comecei dizendo que quando era menino ligava algo à bola. Já não ligo. Assim, afinal, esses bons sentimentos que falou acabaram já não tendo lugar. São os novos tempos... Por isso gosto cá de contar histórias dos tempos antigos. São mais agradáveis. Mais uma vez obrigado e cumpts.

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  13. Só um comentário simples... Esta forma de saudosismo pestila... a sua ingenuidade prevalece e realmente so me faz insistir que o pior de ser criança é mesmo ser-se tao estupido... da pena.

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  14. Bic Laranja15/6/07 21:55

    Não se enerve que a escrita ressente-se. Afinal o(a) estúpido(a) não é você. Cumpts.

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