Aferir é conferir pelo padrão. Toda a linguagem tem um padrão e por ele confiro se o uso que alguém faz da linguagem é melhor ou pior.
Posso aferir a aptidão de fulano para usar a linguagem lendo-lhe um texto ou dando-lho para ler e fazendo-lhe perguntas sobre o dito texto. Da correcção ou incorrecção das respostas afiro a compreensão do texto; pela gramática das respostas afiro o seu domínio da linguagem. Uma coisa é certa: quanto mais a gramática for subvertida menos inteligível será a linguagem de fulano; e se a linguagem de fulano se afasta do padrão ao ponto de se entender muito mal ou de se não entender de todo, então fulano é, aferindo pelo padrão (que é a única bitola válida) inapto no uso da linguagem. Posso pois dizer que, se fulano não se entende com a sua própria linguagem, qualquer texto que se lhe dê ou leia será para ele pouco menos que chinês.
Leio hoje no Diário de Notícias que o Ministério da Educação considera que fulaninhos do 4.º ao 6.º ano inaptos a exprimir-se na sua própria língua podem ainda assim ter aproveitamento na interpretação dum texto que para eles não passará de chinês.
E mais abaixo leio que a habilidade da Associação de Professores de Português para dar como apta aquela gentinha incapaz é… escolha múltipla.
Parece-me bem: se forem o próprios professores a escrevinhar as respostas aos meninos, mais disfarçado será o fracasso. Assim saibam eles (os professores) chinês…
Il. de Maria Keil, Luís Filipe de Abreu, in Maria Luísa Torres Pires, Francisca Laura Batista, Glória N. Gusmão Morais, Livro de leitura da primeira classe, 1.ª ed., Lisboa, Papelaria Fernandes, 1967.
Essas coisas mudam,as de interpretação digo.Mas a Maria Keil gosto mais no livrinho do mestre Norberto:)
ResponderEliminarCumprimentos
Assim haja vindouros aptos a entendê-lo! Cumpts.
ResponderEliminarConfessa-me aqui que ninguém nos ouve: o D.N. dá-te alguma comissão por o publicitares?
ResponderEliminarBj malandro ;)))
Em todos os anos que estudei recordo-me apenas de um professor que por norma fazia o que ele chamava "testes ao estilo americano"; os de escolha multipla. Era professor de Inglês. Para nós obviamente era um regalo, pois a resposta estava escrita e nem era preciso pensar; bastava preencher a matriz e esperar que fosse aquela a resposta sorteada.
ResponderEliminarMenina Marota: cuido que seja entusiasmo por ter lido um jornal em papel, com tempo (prática que desde o Verão passado não exercia); mas julgo que pode afirmá-lo da maneira que diz, sim; gosto em revê-la. :) // Mário: não viram eles, os professores de Português, que com escolha dupla em vez de múltipla aumentariam um pouco mais a probabilidade dos cachopos. Mas cá está: são de Português não sabem Matemática. O que nos leva de volta à decomposição dos saberes... Cumpts.
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