Aferir é conferir pelo padrão. Toda a linguagem tem um padrão e por ele confiro se o uso que alguém faz da linguagem é melhor ou pior.
Posso aferir a aptidão de fulano para usar a linguagem lendo-lhe um texto ou dando-lho para ler e fazendo-lhe perguntas sobre o dito texto. Da correcção ou incorrecção das respostas afiro a compreensão do texto; pela gramática das respostas afiro o seu domínio da linguagem. Uma coisa é certa: quanto mais a gramática for subvertida menos inteligível será a linguagem de fulano; e se a linguagem de fulano se afasta do padrão ao ponto de se entender muito mal ou de se não entender de todo, então fulano é, aferindo pelo padrão (que é a única bitola válida) inapto no uso da linguagem. Posso pois dizer que, se fulano não se entende com a sua própria linguagem, qualquer texto que se lhe dê ou leia será para ele pouco menos que chinês.
Leio hoje no Diário de Notícias que o Ministério da Educação considera que fulaninhos do 4º ao 6º ano inaptos a exprimir-se na sua própria língua podem ainda assim ter aproveitamento na interpretação dum texto que para eles não passará de chinês.
E mais abaixo leio que a habilidade da Associação de Professores de Português para dar como apta aquela gentinha incapaz é... escolha múltipla.
Parece-me bem: se forem o próprios professores a escrevinhar as respostas aos meninos, mais disfarçado será o fracasso. Assim saibam eles (os professores) chinês...
Refª: Maria Luísa Torres Pires, Francisca Laura Batista, Glória N. Gusmão Morais, Livro de leitura da primeira classe, 1ª ed., Lisboa, Papelaria Fernandes, 1967. Ilustrações: Maria Keil, Luís Filipe de Abreu.
terça-feira, 29 de maio de 2007
Chinesices
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Essas coisas mudam,as de interpretação digo.Mas a Maria Keil gosto mais no livrinho do mestre Norberto:)
ResponderEliminarCumprimentos
Assim haja vindouros aptos a entendê-lo! Cumpts.
ResponderEliminarConfessa-me aqui que ninguém nos ouve: o D.N. dá-te alguma comissão por o publicitares?
ResponderEliminarBj malandro ;)))
Em todos os anos que estudei recordo-me apenas de um professor que por norma fazia o que ele chamava "testes ao estilo americano"; os de escolha multipla. Era professor de Inglês. Para nós obviamente era um regalo, pois a resposta estava escrita e nem era preciso pensar; bastava preencher a matriz e esperar que fosse aquela a resposta sorteada.
ResponderEliminarMenina Marota: cuido que seja entusiasmo por ter lido um jornal em papel, com tempo (prática que desde o Verão passado não exercia); mas julgo que pode afirmá-lo da maneira que diz, sim; gosto em revê-la. :) // Mário: não viram eles, os professores de Português, que com escolha dupla em vez de múltipla aumentariam um pouco mais a probabilidade dos cachopos. Mas cá está: são de Português não sabem Matemática. O que nos leva de volta à decomposição dos saberes... Cumpts.
ResponderEliminar