Estava enganado na rua...
Algumas vezes vínhamos pela Sabino de Sousa para comprar amendoins. Mais a rogo do mano que meu, que eu era mais amigo de guloseimas. Vínhamos com a mãe das compras. O itinerário era influenciado por pequenas coisas: um dia pela Actor Vale por causa das bolas de Berlim ou dos sorvetes, outro dia pela senhora dos amendoins na Sabino de Sousa; habilidades da mãe que não encurtavam os trajectos a pé mas que os tornavam mais amenos a nós, o mano e eu.
A senhora lá adiante no passeio, além do carro, parecendo conversar de cabeça erguida com alguém à janela... Era por ali a janela da senhora dos amendoins. Talvez um nadinha mais para cá. Era num rés-do-chão pouco alto, porque eu, pequenino, chegava ao parapeito da janela. A senhora aviava os amendoins em cartuchinhos de mercearia e nós lá seguíamos satisfeitos rua adiante, escascando e comendo...
Por uma ou duas vezes - houve mais, por certo - atravessámos para o passeio de lá. Esta Rua Sabino de Sousa inflecte a 90º o seu curso e eu engraçava com o recanto do passeio lá ao fundo, mais as janelas das casas em ângulo, tão juntas ao canto que as vizinhas se podiam dar as mãos. Julgo que eram por capricho meu essas mudanças de passeio. Mas calhava bem, que na continuação do passeio, no troço final da rua já a chegar ao Jardim da Nêspera, havia um armazém de bananas de que éramos fregueses.
Os prédios de topo foram demolidos. O que se edificou tem um arco para ligação desta rua a uma praceta que se fez lá por trás.
Chafariz da Rua Sabino de Sousa, Alto do Pina, [s.d.] [1964].
Augusto de Jesus Fernandes, in Arquivo Fotográfico da C.M.L..
O pitoresco chafariz é o marco mais notável desta rua; fica no cruzamento com a Rua Quatro de Agosto. Não conheço em Lisboa outro igual.
Sábado, cá a senhora comprou amendoins no café do costume lá na Praia das Maçãs. Vinham num pacote plástico luzidio, de cores metalizadas; tinham paprika ou especiarias - uma coisa assim -, e muito sal; aberto o pacote não era preciso descascar... Com isto lembrei cá à senhora umas máquinas que se punha cinco ou dez tostões e, rodando um manípulo, aparava-se os amendoins que caíam com as mãos em concha. E a seguir lembrou-me da história lá de cima.
Estava enganado na rua. Chamei à Sabino de Sousa Quatro de Agosto.
Chafariz da Rua Sabino de Sousa, Rua Quatro de Agosto, 1964.
Armando Serôdio in Arquivo Fotográfico da C.M.L.
segunda-feira, 19 de março de 2007
Histórias de amendoins
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Olha o chafariz do Sr Victor! Era o nosso motorista de trabalho e tinha passado os tempos de infância ali. Fazia sempre desvios maquiavélicos para passar por ali, para nos dizer: Olha o meu chafariz e contar mais uma história de infância.Sempre diferentes. Agora o Sr Victor é motorista duma chefia qualquer, nas continua com o seu bigode e sorriso malandreco muito à Alto de Pina.
ResponderEliminarBoa lembrança, Senhor Bic! Saudades do Sr Victore da sua R4!
Pronto, la' venho eu dizer que gosto muito dos seus contos... que fazer? Sou repetitiva. ;-)
ResponderEliminarBoa semana.
Havia de contar muitas históras este chafariz... Agradeço-lhe a história do sr. Victor, Dona T. // É demasiado gentil, D. Scarlata, muito obrigado! // Cumpts. e votos de boa semana, minhas senhoras!
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