Lisboa, sexta-feira, quase seis da tarde: apanhado na ratoeira da 2ª Circular, quando arranco, não progrido mais que meio carro...
Ouço uma sirene lá atrás; o Doppler diz-me que avança em melhor ritmo que eu. Enquanto procuro nos espelhos a fonte do aflito som, salta o aviso da telefonia do carro :
- 2ª Circular: no viaduto da Fonte Nova, no sentido aeroporto Pina Manique há um veículo capotado. Trânsito com muita demora; a fila chega à Encarnação.
- Que raio! Tanto banzé sobre homossexualidade e esta gente não consegue dizer bicha - pensei. O pensamento foge; passa a vaguear entre a moral preocupação com a(s) vítima(s) do acidente e a irritação pelo transtorno no tráfego. Mas a sirene soa-me agora ali, duas filas à minha direita, e afasta-me daquela angústia.
Sigo com os olhos o gemido estridente e, onde esperava ver uma ambulância vejo um polícia de mota, levantado do assento, gesticulando vigorosamente para afastar a mole de carros engarrafados. Os malabarismos que faz anunciam gente grada:
- Um batedor? - digo cá para mim. - Lá vem alguém que não pode sujeitar-se à hora de ponta como os comuns mortais.
Nisto, outro batedor. Logo atrás, furando agilmente no meio do trânsito um autocarro dum clube de futebol.
- !...
- Um autocarro dum clube de futebol?! Um autocarro dum clube de futebol?!...
E lá seguiu enquanto eu ali fiquei; ali ficámos os comuns mortais, baixando o défice pela via do I.V.A. e do I.S.P. vãmente queimados; promovendo o P.I.B. pela via dos lucros das petroleiras...
E o autocarro do clube?
Claro que seguiu! A indústria da bola pode produzir grande riqueza; mas não parada no trânsito...
Equipa da Associação de Futebol de Lisboa que jogou com os estudantes de Bordéus e ganhou por 5-1.
Campo da Feiteira, Benfica, 21/5/1911.
Fotografia de Joshua Benoliel in Uma Cidade do Futebol, C.M.L. e Assírio e Alvim, Lisboa, 2004.
Nota: não sei nada do acidente nem passei por ele; saí da Circular na primeira oportunidade para evitar mais angústias.
Deliciosos estes equipamentos, com gola, o que só se mantém no "rugby". E o pormenor da bipartição com um dos lados em branco faz lembrar a Bandeira de antes de 1910, ao contrário. Já agora: o pedaço mais claro, em forma de escudeto que cobre o lado esquerdo do peito é um bolso, ou um emblema?
ResponderEliminarParabéns e ab.
Ah! E eram tempos melhores, de amadores, em vez de batedores!
ResponderEliminarPode ser que fosse bolso... E também prefiro o tempo de amadores. Cumpts.
ResponderEliminar