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sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

O lugar de Sete Rios com mais alma

 Tenho pregado na parede aqui do blogo algumas imagens antigas de lugares de Lisboa; aponho-lhes às vezes breve nótula e pouco mais. Vale-me que vão comentando os benévolos leitores, o que melhor compõe as coisas.
 O que publiquei n' O lugar de Sete Rios recebeu este emocionante comentário duma amável leitora:



  Não me lembro de si mas lembro-me muito bem de Sete Rios e ao ver estas fotografias a comoção é enorme.
  Fui um dos primeiros nascimentos da maternidade Alfredo da Costa e um dos primeiros baptismos na Igreja de Fátima até onde íamos a pé, pela mão de nossa Avó, aos Domingos, ouvir a missa. Quando não íamos a Fátima íamos à capela dos Condes de Caria ou à Quinta das Mil Flores dos Carvalho. Pela manhã juntávamo-nos no cruzamento da rua de Campolide com a rua de Carnide e com a parte velha da estrada de Benfica esperando as camionetas dos respectivos colégios. Entre a criançada estava José Carlos Ary dos Santos e irmãs que vinham de Carnide e declamava. Às vezes era a mãe dele que nos ía buscar para juntos irmos ouvir a missa.
  Ali vivemos até nos terem demolido e a câmara nos ter dado tuta e meia pelas casas e terrenos. A casa dos meus trisavós beijava a linha do combóio, foi vendida posteriormente a Caeiro da Mata e nós vivíamos naquelas casas que as árvores escondem. No prédio da direita viviam os Burnay gémeos e por baixo um parente nosso da família do conde de Farrobo. Um irmão da minha mãe morreu ali à porta de casa. Trucidado por um eléctrico que esmagou o seu
side-car quando vinha duma festa no palácio dos marqueses da Fronteira. O palácio dos Fronteira já era em Benfica. A minha avó tinha como inquilino um tal advogado Palma Carlos e a firma Pardal Monteiro para onde me escapava pois adorava talhar a pedra.
  Que Saudades!!!
  Saí dali com 11 anos, não posso esquecer o enorme jardim onde demos nomes a cada rua e onde andávamos de bicicleta, jogávamos
volley, tínhamos horta e estrumeira, e enchíamos de amigos e primos todos os fins-de-semana. Na rua de Campolide morava o nosso médico, o dr. França e os Paraty, irmãos da D. Teresa de Noronha que visitava a minha avó. Mais adiante na estrada de Benfica morava a Srª. D. Ângela Calheiros, amigos da minha família que visitávamos com certa assiduidade, tinham um jardim lindo. Parece ter sido uma repartição da polícia e agora em ruínas.
  Muitas histórias e muitas recordações o sr. me veio acordar. Hoje já com uma dúzia de netos estranho a emoção que estas fotografias me proporcionaram e me fez correr Sete Rios pelos olhos. Obrigada!!! Nem sei como o seu blog me apareceu na frente... É tudo tão estranho... Eu nem procurava Sete Rios... A vida tem coisas...
  Tudo de Bom para si e seus familiares no Novo Ano de 2006.


(Escrito por Verdade, em 3 de Janeiro de 2006, 05:55 PM.)



Sete Rios, Lisboa (J.Benoliel, 195...)
Estrada de Benfica, viaduto de Sete Rios, Lisboa, 195...

Sete Rios, Lisboa (J.Benoliel, 195...)
[Troço da Estrada de Campolide junto ao viaduto de Sete Rios], Lisboa, 195...

Rua Campolide, Lisboa (J.Benoliel, 195..)
Avenida Columbano Bordalo Pinheiro em construção, Lisboa, 195...




Nota: ainda outra imagem do cruzamento da Estrada de Campolide com a de Benfica n' O Caneiro.
Fotos: Judah Benoliel, in Arquivo Fotográfico da C.M.L.

12 comentários:

  1. Gostei de ler. É bom ver o que uma foto pode provocar, quanta recordação... Mesmo quando não comento gosto de passar por cá e ver, fico sempre com algo bonito na memória! Tenho elogiado o seu blog a várias pessoas e todas o adoraram quer pelas fotos quer pela simplicidade da sua apresentação que de um modo estranho não deixa ninguém indiferente. Beijinho

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  2. É de uma grande generosidade o que me diz. Muito obrigado pela sua gentileza! Cumpts.

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  3. É de facto um testemunho magnífico aquele que a bloguista viveu, escreveu e tão bem soube explorar. A junção das tuas fotos a este texto deu um "casamento excepcional", passo a expressão. Fica bem, Bic. P.S. - Não arranjas fotografias antigas do Algarve, nomeadamente de Vilamoura (que não é antiga mas teve um início de vida como todas as outras?)

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  4. Notável lembrança. Sete Rios tem mudado tanto que, mesmo desde os meus tempos de Faculdade, já só o Zoo o faz reconhecível.
    Parabéns.

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  5. Também achei o comentário excepcional, Dª Mocho, não desfazendo doutros que recebo! Sobre a Vilamoura hei-de procurar. - Sete Rios mostra que as quintas e as belas casas de outrora estão proibidas na cidade: especulação imobiliária mascarada de progresso! Eis com se não reconhece o lugar, caro Paulo. Cumpts. a ambos.

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  6. fantasticas fotos que tu arranjas pá... as mais antigas pelo menos... é o tempo a passar que transforma lisboa... ora entao um grande bem haja

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  7. É o tempo, é... Cumpts.

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  8. Angela Calheiros1/2/06 19:51

    Encontrei o blog por acaso e também eu devo dizer que a vida tem por vezes estranhas coincidências... O comentário é magnífico e pessoalmente muito comovente. Permitiu-me viajar de até à minha Avó da qual guardo o nome (Ângela Calheiros) mas que infelizmente não cheguei a conhecer, ao ambiente da época e à casa de Sete Rios de onde desde sempre ouvi relatos de pedaços de vida por lá passados... Obrigada pela agradável surpresa!
    AC

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  9. Minha senhora:
    Sou eu que lhe agradeço o seu amável comentário. Respeitosos cumprimentos.

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  10. E assim de repente, quando leio o comentário da senhora, lembro-me do meu avô, e das saudades que tenho dele... Foi guarda-nocturno por São Domingos de Benfica, Sete-Rios e Campolide........

    Um beijo avô...

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  11. Bic Laranja2/6/06 10:14

    Grato por saber. Cumpts. e obrigado!

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  12. Sei bem,as coisas foram o que tinham de ser mas, a verdade verdadinha é que, o actual sucesso turístico de Lisboa não deve muito,(quiçá nada),aos progressistas dos anos do pós-guerra. Valeu-nos não termos tido meios quando não nada ou muito pouco teria restado da arquitectura popular ou erudita portuguesa tradicional.
    Nota -Sou grande admirador da arquitectura contemporânea (1)e até mesmo pela sua existência em casco urbano medieval, se for respeitada a volumetria do local e para substituir um pequeno casebre com uma porta e uma janela. Tudo menos o falso antigo, como se faz em Tavira.
    (1) Será que arquitectura contemporânea é incompatível com pedra, tijolo de burro e argamassa? - (cal e areia).

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