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terça-feira, 1 de novembro de 2005

Quem te mandou a ti, sapateiro, tocar rabecão

- FOI HÁ 250 ANOS UM DOS MAIORES TERRAMOTOS QUE HÁ MEMÓRIA!
A introdução à reportagem da RTP sobre o desastre de Lisboa, só de si, parece um terramoto. A reportagem, ela toda é um outro desastre. Vede:

  1. Entrevistar um sismólogo pode fazer sentido; pô-lo a debitar história parece excessivo. Será publicidade a algum livro sobre o terramoto (1)?
  2. Representar D. José como um incapaz e o marquês de Pombal como herói é trivial. Afirmar com estrondo que o ministro do rei toma a primeira medida política moderna ao tratar da reconstrução da cidade é ressonante estupidez.
  3. Falar em tsunamis (maremoto tornou-se arcaísmo de repente) ou na construção de forcas para saqueadores não espanta. É o que prende a atenção das massas, não é?
  4. Referir com tanta ênfase a cartinha de Cavaleiro de Oliveira (com passeata até à rua de Lisboa que lhe é dedicada) exortando D. José a abjurar o catolicismo, omitindo-se completamente Manuel da Maia, Eugénio dos Santos, Carlos Mardel ou os planos de reconstrução, é digno do maior espanto.
Não fora a crença que tenho na inocente ignorância do(a) jornalista e julgaria tratar-se de uma qualquer forma de evangelização, não uma reportagem sobre o terramoto de 1755. Não que isso tivesse mal, mas não era afinal outro o tema da reportagem?

Si ce monde, tel qu'il est, est le meilleur des mondes possibles, on ne peut donc pas espérer un avenir plus heureux.(2)

Lisbonne
J. P. Le Bas, Praça da Patriarcal após o tremor de terra de 1755
in Recueil des plus belles ruines de Lisbonne, Paris, 1757.
Gravura de acordo com os desenhos de Paris e Pedegache.


Notas de pé de blogo:
(1) Todos sabem já a receita: pegar num pedaço de história com antiguidade mais ou menos redonda e publicar um escrito sobre o assunto. A imprensa e a televisão hão tanto de divulgar a obra quanto a efeméride e vice-versa. Resultado: promoção exponencial das vendas. Isto quando não a fazem grosseira e descaradamente a um qualquer autor de uma qualquer obra oportunista.
2) VoltairePoëme sur le desastre de Lisbonne, 1756.

11 comentários:

  1. Tambem vi a reportagem da RTP1 e concordo contigo quando dizes que a peça se desviou do assunto e ficou mal ao jornalista falar de tsunami (no séc. XVIII), pese embora tivesse gostado de ver o sismógrafo falar. Já há tão pouca gente com qualidade técnica...e este pareceu-me que sabia do que falava (embora fosse parecido com o Vitor Constâncio que ultimamente até se tem enganado bastante). PIU!

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  2. ... desculpa, sismólogo (escrito a correr, até parece a mesma coisa, não fosse a gente ler hi, hi, hi).

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  3. Devia ter-se explorado melhor a competência do entrevistado em vez de encher o vazio com palermices. Cumpts.

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  4. Meu caro amigo: Achei no mínimo bizarra a peça. Parecia que a parte final estava ali enxertada. A Santa Ignorância já nos conhecemos. E a falta de Luz também. O trágico é que não haja nada, mesmo nada, a que valha a pena prestar atenção nestes canais de televisão. Um abraço

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  5. De facto assim é. Cumpts.

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  6. Eles têm que ocupar o tempo com alguma coisa... a qualidade agora não faz parte... do programa.

    Um abraço ;)

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  7. Precisamente! E o programa não passa duma interminável tarefa de encher chouriços. Cumpts.

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  8. Lamentavelmente a nossa televisão peca e continuará a pecar em inúmeros campos, mais lamentavelmente ainda confesso que somos um povo que gosta de ser enchido como chouriços e, enquanto assim for dificilmente muita coisa mudará. Beijinhos e continuação de bons posts no seu blogo!!!!!

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  9. No pior e no melhor seguimos a par da globalização, essa nova era civilizacional que dita "o melhor dos mundos" por igual a todos. Dantes ainda enchíamos os chouriços à nossa maneira. Agora nem temos sequer maneiras; copiamos cegamente as piores que vêm de fora... Obrigado pelas amáveis palavras. Tenho visitado com muito prazer o seu blogo; desculpe não comentar mais vezes. Cumpts. para si e para a D. Fátima.

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  10. Todos nós temos a nossa capacidade de avaliação dos factos, e por isso apresentamo-los como nos apetecer! Porém espera-se que um canal televisivo seja isento, especialmente o do estado! O problema é que nem toda a gente vai perceber que quem fez a reportagem foram pessoas como as outras, com qualidade e defeitos, com maior ou menos capacidade de interpretação! E acabam por tomar as verdades que ouvem na televisão como absolutas. Esse, sim!, é o grande problema...

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  11. Tem razão. Mas o nivelamento dos meios de massas pela mediocridade é aflitivo. Assim nunca haveremos de passar da mais dolorosa imbecilidade. Cumpts.

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