
Vista aérea sobre o campo do Vitória, Lisboa, 1955.
Mário de Oliveira. Arquivo Fotográfico da C.M.L..
Esta história havia de sair no dia 16, quando faria — cuidava eu — 40 anos que aconteceu... — Há pedaços de infância assim, perdidos em terças-feiras do passado que conseguimos reconstruir, como os Legos, justamente, dessa mesma infância.
Pois bem! Mas o caso deu-se duas semanas antes. Enquanto remontava aqui os Legos desta história, eles não encaixavam no dia 16: o dia a seguir ao feriado de Agosto era quando seria sempre certo estarmos para a terra. E esta história deu-se, não na terra, mas nas terras; umas que caíam em ribanceira do alto do campo do Vitória para o lado da linha de cintura. A ribanceira era alta e a pique. Eu e o Tonico fomos lá dar por fora da rede, contornando o campo, a ver se conseguiríamos entrar nele. Não na saltámos porque tinha ela uns bons 5 m de altura. Como lhe não achávamos buraco raso, fomos dando a volta. Até que chegámos ao beco sem saída donde se ligava a rede do campo com o muro da escola primária. Para não andarmos a volta toda ao contrário, volta longa, resolvemos descer a ribanceira ali e atalhar pelos Embrechados, que sempre seria mais perto. Eram umas seis para sete da tarde e nenhum de nós aparecera para lanchar. A minha mãe não, mas a madrinha do Tonico haveria de lhe chegar umas lambadas, só disso, logo que tornasse a casa.
Muito bem! Até aqui, que tem a história de especial? Uma história de miúdos, dir-me-eis. Pois, mas ao resolvermos enfrentar a ribanceira ali naquelas terras a coisa tomou foros de alpinismo. Sem arneses nem petrechos que hoje fazem de actividades que tais brincadeira de meninos. E putos como eu e o Tonico enveredámos assim por uma descida a pique só com mãos agarradas a ervas e pés em barrancos de terra solta. Com esforço, foi só no sopé do cabeço terraplenado em que era e é o campo do Vitória, quando o declive se tornava menos acentuado, que se deu o caso: dispusemos-nos a enfrentar ali a descida de frente para a base do monte como caminhada mais fácil, e não já dependurados às ervas, de costas, como alpinistas de ocasião em escalada descendente. Ainda assim o plano era demasiado inclinado e as pernas logo aceleraram em passo de corrida mal a gravidade lhe mostrou a sua força. Na corrida desenfreada ribanceira abaixo, com as pernas em alta rotação a ver se nos aguentávamos sem tombar, senti um arranhão no pé e pensei — Já me aleijei! —, mas o que me doeu não me deu grandes cuidados. Porém, logo que parei no fim da descida e olhei para o pé, vi um rasgão enorme na carne fina do artelho e, através, uma visão irreal: o meu osso, branquinho, branquinho, a espreitar.
Apavorei-me.
— Já me aleijei! — gritei ao Tonico. Quis chorar mas não conseguia. Corri para casa — Ó mãe! Ó mãe! — aflito.
Em casa, a minha mãe não achou graça ao ferimento. Lavou-mo com água oxigenada (sim, ainda a havia nas caixas de primeiros socorros), ligou-me o pé e chamou um táxi (naquele tempo havia água oxigenada, mas não havia I.N.E.M.). Fomos ao hospital de S. José. Coseram-me a ferida com nove pontos. Portei-me como um herói. Nem chorei como um outro que lá estava na enfermaria e que berrava desalmado, coitado, enquanto o cosiam de ter caído sobre umas garrafas partidas no meio duma briga. O gajo era maior que eu...
De regresso, em casa, eram só mimos comigo: pedi uma almofada para pôr sob o pé como vira ao meu irmão quando estivera lesionado com um joelho de água dos juvenis do Vitória onde jogava a suplente. Foi ele mesmo que ma foi buscar, coisa extraordinária! E foi ele que me deu a notícia, que sabia me iria animar, de no sábado seguinte a Radiotelevisão tornar a dar o Espaço 1999. Cá está o marco que me permite situar no tempo exacto a memória: de acordo com as Catacumbas do Espaço 1999 cuidei que esta história se passara na terça-feira anterior à estreia na R.T.P. da segunda série do Espaço, no sábado de 20 de Agosto de 1977. As Catacumbas dizem que se basearam no anuário da R.T.P. — Má fonte: a data está errada. A cronologia não bate com o hábito de estarmos na terra depois do feriado de Santa Maria de Agosto. Consultei, a tirar dúvidas, pois, os Diários de Lisboa de Agosto de 77 (para alguma coisa, além do simples sorver dinheiro ao erário dos portugueses, a fundação do irmão do Dr. Tertuliano havia de servir) e a conclusão é inequivoca: vi aterrado pela primeira e única vez na minha vida uma porçãozinha do meu esqueleto em 2 (e não em 16) de Agosto de 1977. A segunda série do Espaço estreou-se em 6 de Agosto de 1977, para minha enorme sastifação, então.

Diário de Lisboa (supl. 7 x 7), 6/8/1977.
Esta manhã doía-me o artelho deste pé, mas deve ser reumático.